‘Correntes d’Escritas’. Onde, ou até onde, mente ou pode mentir o escritor?

A pergunta partiu de Laborinho Lúcio e a 27.ª edição das Correntes d’Escritas tentou responder numa das mesas. Enquanto existir imaginação, o escritor pode tudo, já se sabe.

Os escritores são mentirosos. Eu fui diagnosticada como mentirosa aos 7 anos.

No meu relatório escolar ficou escrito, com a gravidade clínica de quem identifica um desvio preocupante, a seguinte frase:

“A Patrícia sofre de excesso de imaginação.”

Excesso. Como se fosse febre. Ou uma perturbação a vigiar. E porquê perguntam vocês? Porque perante quatro patinhos de plástico disse que poderiam ser quatro ou mais, dependia se existia algum patinho grávido. A professora queria que eu aprendesse os números, eu queria uma história com futuro.

Nunca vi num relatório escolar a frase: “Este aluno sofre de excesso de obediência” ou “esta criança revela preocupante ausência de pensamento próprio.”

O que inquieta não é a imaginação. O que inquieta é aquilo que ela pode pôr em causa.

Eu via coisas. Inventava episódios inteiros a partir de um detalhe mínimo. Um colega que faltava tornava-se vítima de um rapto internacional. Uma conversa banal escondia conspirações. Um simples recreio acabava com dragões.

Para mim fazia sentido. O mundo parecia-me sempre maior do que aquilo que me mostravam. Os adultos não achavam graça.

Felizmente, tive um tio-avô que me chamou ao seu escritório para me dizer algo que mudou tudo: “Isso não é uma doença. É um superpoder. Mas tens de o proteger. Porque os adultos perdem-no.” Eu acreditei nele.

E passei a observar os adultos com alguma desconfiança.........

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