Um Banco de Fomento como deve ser |
Em Portugal gostamos bastante de esperar. Esperamos por um novo aeroporto internacional de Lisboa, mesmo quando há muito que o atual está desatualizado, curto e já sem mais pano para descer as bainhas. Esperámos pela Alta Velocidade dos vários Governos que iam passando, sempre com prejuízo para as exportações e para a implantação de empresas no interior. Esperamos tanto, que até temos expressões idiomáticas como “obras de Santa Engrácia”, um projeto que levou 400 anos a parir.
Também tivemos de esperar mais de uma dezena de anos para ter um Banco de Fomento e funcionar como deve ser. A ideia de ter uma instituição financeira ligada ao Estado (sem ser a Caixa Geral, que opera em regime de concorrência com os privados, entenda-se) surge com maior frequência na cabeça do poder político quando a banca privada parece não estar a providenciar (em condições) o financiamento que as empresas precisam.
Foi assim na crise financeira de 2008, que nos chegou com mais força em 2009, e também em 2012, quando as contas públicas estavam em fanicos e o programa da troika era a bússola do Governo da altura. Dois anos depois, em 2014, nascia a Instituição Financeira de Desenvolvimento (IFD). Missão? “Colmatar falhas de mercado no financiamento de PME, utilizando fundos europeus”.
Foram precisos outros seis anos até se encontrar a fórmula que temos hoje. Em 2020, o ministro Pedro Siza Vieira determinou a fusão da IFD com a PME Investimentos e com a Sociedade de Investimento (SPGM), para dar origem ao atual Banco Português de Fomento.
O BPF teve por estas semanas o seu grande teste, não de fogo, mas de água. Com o centro de Portugal atolado, enlameado, sem telhado, sem eletricidade e com as suas empresas paradas e à beira da extinção, todos os olhos se viraram para a instituição agora liderada por Gonçalo Regalado. Primeiro para criar uma forma de recolher os milhares de pedidos de apoio de empresas, depois para articular as verbas destinadas à reconstrução, sobretudo fundos europeus destinados a mitigar este tipo de fenómenos.
A liderança do BPF percebeu que, quando a chuva intensa está a ensopar as contas das PME, a velocidade de intervenção tem precedência sobre outras considerações.
“Em nove dias úteis fizemos aquilo que tínhamos demorado nove semanas na covid e colocámo-nos ao serviço das empresas. Dos 1100 milhões de euros das candidaturas já estão contratados ou em contratação 748 milhões. Ou seja, hoje 68% de todos os pedidos estão na mão dos empresários. Estão em validação 30 milhões, que deve ter sido o que entrou ontem à tarde”, disse esta terça-feira o presidente do Banco de Fomento perante várias centenas de empresários reunidos em Lisboa. Não houve grande truque, disse ainda. Bastou confiar em quem pediu ajuda.
“Uma autodeclaração do empresário e [dados do] seu contabilista certificado, para nós, chega. É o que precisam para ter acesso à linha de garantia, para ter acesso ao investimento. Nós queremos confiar nas empresas e nos empresários”, completou.
E depois, se houver abusos (que haverá, como muitas vezes acontece), a fiscalização do Estado agirá em conformidade. Mas agora, é tempo de reconstruir e pôr as empresas a mexer. Foi isso que o Banco de Fomento, que muito custou a sair do papel, percebeu e percebeu bem. E merece que se faça boa nota disso.