A reforma vista como uma cruzada

emHá discursos que anunciam mudanças e há discursos que se anunciam a si próprios como revelação. O problema começa quando alguém deixa de falar como reformador e passa a falar como enviado, e quando a reforma deixa de ser ferramenta de melhoria e passa a ser liturgia. A situação agrava-se quando a política pública, que deveria ser prudente, concreta e cumulativa, se transforma numa espécie de evangelho administrativo, pronunciado como se antes dele houvesse apenas ruína, atraso e pecado original.

O atual Governo fala num “novo paradigma de serviço público” para descrever esta agenda. Nada contra a ambição, pois o Estado Português precisa, de facto, de simplificação, coordenação, digitalização e melhor resposta aos cidadãos. Mas uma coisa é querer reformar, outra bem diferente é falar como se a reforma começasse no momento em que se entra em cena, com a solenidade de quem chega para corrigir não apenas a máquina do Estado, mas quase a própria História........

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