Quando a infraestrutura falha, falha o Estado
Escrevi há dias que Portugal não pode continuar a aprender apenas depois da tragédia. Mas para deixar de aprender à custa de vidas e património, é preciso compreender porque é que a infraestrutura falha sistematicamente.
O comboio de tempestades que assolou o país não expôs apenas falhas de coordenação na resposta imediata, mas também décadas de sub-investimento estrutural, incentivos políticos deformados e uma ilusão perigosa: a de que eficiência económica e resiliência são compatíveis sem custo.
A distinção entre incidente e regime de falha não é temporal, é sistémica. Quando a infraestrutura crítica opera sem redundância, cada tempestade deixa de ser uma anomalia e passa a ser um teste de stress que o sistema está desenhado para reprovar. E quando falha simultaneamente em eletricidade, comunicações e mobilidade, não falha apenas a economia: falha a capacidade soberana do Estado de proteger os seus cidadãos.
Cada interrupção não é um número nas estatísticas. É uma família isolada, um bombeiro incomunicável, um hospital em esforço. É o instante em que o conforto de um país moderno se desfaz e a vulnerabilidade humana reaparece........
