Paulo da Costa Domingos: contra as correntes do tempo

Dois livros, um saído em Fevereiro de 2025 e um outro, mais recente, de Janeiro deste ano, são, no fundo, um díptico. Os títulos são estes: Características (o de 25) e 987654321 (o de 26).

Aquele título funciona como um postulado geral: apresentar as características do nosso tempo, desta era caracterizada pelos “projectos servis”, com o poeta aguardando “a porcaria vir à tona / olhando triste a infantil memória / de um rio vasto como o céu / antes de ter olhos electrónicos”. O livro mais recente pode ler-se como cáustica observação, ainda mais desencantada, daquilo que no primeiro conjunto de textos era a certeza de um processo de decadência do Ocidente impossível já de disfarçar (“Vocês conseguiram tão bem sedentarizar-nos, / e agora estão a braços // com as imigrações selvagens’”) e é agora – com esse título a mostrar a contagem decrescente da nossa época – a observação da História no seu período longo, a Modernidade: “O frio desta época, a nossa, / a silhueta atrás da cortina, / a mísera ejaculação: precoce / substituto do desmame (…).”

Com efeito, um díptico. Mas faz sentido que o seja, posto que na poesia agreste, analítica, seca, austera (o trabalho da frase, o arranjo estrófico, a escolha da quadra e do terceto, do dístico e do monóstico, o cuidado métrico, com subtil........

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