No vale das sombras: poesia e suicídio, um livro

É neste início de ano, não obstante a data de edição ser de Novembro passado, um dos livros a que teremos de voltar, um dos livros deste tempo. Trata-se de uma “antologia de poetas suicidas”, com tradução e selecção de Carlos Ramos e cobrindo - em jeito de alfabeto, ou quase - inúmeros poetas que se suicidaram. O prefácio é de Paulo Chagas, e, diga-se, um excelente prefácio, em cujas páginas encontramos a justificação desta antologia: se nenhum gesto de autodestruição deve ser entendido como “nobreza trágica”, e se a morte dos autores que admiramos “nos perturba porque nos confronta com a possibilidade de que a arte não seja suficiente para salvar”, a verdade é que, precisamente por serem suicídios de poetas que admiramos, esta antologia tem uma força e um fascínio inescapáveis. Podemos ver em diversos textos o conflito interior de um eu agónico para quem o mundo é abismo e mistério (Costafreda), ou podemos descortinar no poema de um suicida a certeza de um vazio ontológico que nasce da expulsão do mundo materno, da demolição do mito fundacional (Ana Cristina Cesar), que é também erótico, amoroso. No caso da poeta brasileira, poemas há que são de uma intensidade trágica que roça a desistência e a demissão: “não posso ainda acreditar na vida”, “vivo como quem despede a raiva de ter visto” (p.20). Desistência e demissão similares em Anne Sexton que se dirige a Sylvia Plath, estilhaçamento do ser que com a mesma clave do ideal de amor em ruínas se dá a ler em........

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