Foto de José Luís Santos

Há dias bem encorpados que nos tocam na memória por tudo aquilo que vivemos, pelo desgaste, sacrifício e satisfação final pela superação de um desafio mais complicado do que se afigurava:

Encontrava-me em Mastuj, uma aldeia perdida no norte do Paquistão onde tinha sido obrigado a pernoitar por já não haver transporte para Gilgit, bem do outro lado da majestosa cordilheira montanhosa desta zona do país. Depois de um episódio de sorte que me iluminou, quando conheci um grupo de jovens realizadores que andavam por aquelas bandas a fazer um documentário, e que no dia seguinte iriam na mesma direção que eu, tive de acordar pelas cinco da manhã pois a viagem seria longa e tinha mesmo de chegar ao meu destino.

Foram pontuais, tal como eu, e lá partimos com o nascer do sol. A estrada, se é que se pode apelidar de tal, é dura, só possível de atravessar num jipe 4×4, ao qual nos agarramos com as forças que temos para não sermos projetados com os fortes solavancos com que o velho Toyota nos agride numa subida que nunca mais acaba. O esforço é compensado quando atingimos o alto de Shandur, a 4500 metros de altitude, um miradouro natural que nos dá horizonte até onde a nossa vista consegue alcançar. É também aqui que se situa o mais alto campo de Polo do mundo, onde, no início de julho, as seleções de Chitral e Gilgit-Baltistan se encontram para aguçar a sua rivalidade. Diz-se por aqui que a primeira equipa vence tradicionalmente a partida.

O percurso agora é descendente, e voltamos a ver vegetação, que começa a dar cor ao vale à medida que a torrente de água que derrete dos glaciares vai jorrando com maior intensidade. A vida vai despontando até nos prendar com a contemplação do vale de Phander, um hino à fertilidade que é o sustento deste povo de agricultores e pastores. O nosso veículo não passa daqui, e há que retirar tudo pois o percurso do motorista agora será inverso. Aproveita-se a serenidade destas águas para, na sua margem direita, tomarmos o pequeno almoço. Pão com omeleta e chá verde, como é costume neste país.

Mas a minha vida, tal como a deles, não era estar ali especado, pelo que tivemos de nos desenrascar para conquistar mais uns quilómetros para o percurso que queríamos fazer. Lá conseguiram desencantar uma velha carrinha que nos levasse até Gupis, aldeia em que nos separaríamos. O nervosismo apodera-se facilmente de nós quando as nossas pequenas vitórias não são mais do que um conta gotas, e a grande fatia ainda está para vir, pois havia mais de uma centena de quilómetros pela frente e toda a gente me dizia que era impossível chegar a Gilgit pois as estradas estavam bloqueadas, bem como os acessos à cidade, em virtude da Ashura, as festividades xiitas que comemoravam o martírio do Imã Hussein. O panorama não era nada animador.

Os meus amigos não me deixaram desamparado, e conseguiram parar um carro que me levaria nesse sentido, pelo menos até Ghakuch. Num carro que se abanava todo por a roda direita traseira estar gravemente danificada, mas a andar, dois homens na casa dos 50 anos fizeram-me sinal para entrar e seguir viagem, sem pagar. Após a conversa do costume sobre o futebol do meu país, sublinharam que eu era hóspede deles e perguntaram-me do que necessitava. O condutor era uma chaminé ambulante, a fumar cigarro atrás de cigarro, intercalado com haxixe. Numa sala de chuto em que aquele veículo se tornou, tive de recusar muito diplomaticamente a generosidade deles enquanto abria o vidro perro da porta do meu lado para apanhar ar puro.

A viagem seria mais longa do que eu pensava. (continua)

QOSHE - Bagagem d’escrita – Epopeia num dia longo -I (Paquistão 2022) - José Luís Santos
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close
Aa Aa Aa
- A +

Bagagem d’escrita – Epopeia num dia longo -I (Paquistão 2022)

8 1 0
28.11.2022

Foto de José Luís Santos

Há dias bem encorpados que nos tocam na memória por tudo aquilo que vivemos, pelo desgaste, sacrifício e satisfação final pela superação de um desafio mais complicado do que se afigurava:

Encontrava-me em Mastuj, uma aldeia perdida no norte do Paquistão onde tinha sido obrigado a pernoitar por já não haver transporte para Gilgit, bem do outro lado da majestosa cordilheira montanhosa desta zona do país. Depois de um episódio de sorte que me iluminou, quando conheci um grupo de jovens realizadores que andavam por aquelas bandas a fazer um documentário, e que no dia seguinte iriam na mesma direção que eu, tive de acordar pelas cinco da manhã pois a viagem seria longa e tinha mesmo de chegar ao meu destino.

Foram pontuais, tal como eu, e lá partimos com o nascer do sol. A estrada, se é que se pode apelidar de tal, é dura, só possível de........

© Diário As Beiras


Get it on Google Play