À mesa, entre iguais, onde todos se alimentam do sonho |
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À mesa, entre iguais, onde todos se alimentam do sonho
A polémica veio a lume há uns dias: na Escola Salesianos de Manique, em Cascais, os menus de almoço, na cantina da escola, diferem em função da condição socioeconómica das famílias, ou seja, há uma ementa para quem paga as propinas na totalidade e outra para os alunos com apoio social. A mesma escola, a mesma cantina, a mesma mesa, mas comida diferente, em função do dinheiro que cada família tem. Há cerca de oito centenas de alunos a frequentar este colégio ao abrigo dos contratos de associação, em que o Estado assume a mensalidade por não haver resposta na rede de ensino público. A ideia é garantir a todos, por igual, acesso à Educação – escusado será dizer: nas mesmas condições. Do portão da escola para dentro são todos iguais. No entanto, nesta escola (será caso único?), enquanto os alunos que pagam a mensalidade podem escolher entre três pratos disponíveis, os outros têm apenas um prato à disposição. Num dia em que os alunos do privado tinham, à escolha, um prato de carne, outro de peixe e outro vegetariano, aos alunos com apoio social estava reservado arroz de atum com salada mista. Esta realidade é recente: até há dois anos, os estudantes do público podiam escolher entre todas as opções disponíveis, desde que pagassem a diferença entre o valor assumido pelo Estado e o valor pedido aos alunos do privado. A direção do colégio culpa o Ministério da Educação pela diferença de tratamento, como se fosse possível uma escola aceitar, de cabeça baixa, algo assim. Diz que foi multada, por desrespeitar o “enquadramento administrativo das refeições subsidiadas”: o Estado não lhes permite vender as refeições do privado ao regime público. Assume, também, que o valor atribuído pelo Estado é muito inferior ao custo médio por aluno no ensino público: estamos a falar de 1,46 euros por cada refeição dos alunos subsidiados, um valor que o responsável dos Salesianos diz ser “muito baixo para fazer refeições iguais aos outros”. A direção da escola garante, ainda, que não existe qualquer distinção entre alunos. Mas existe e é indigna. Sentar crianças lado a lado, numa refeição partilhada, com comida diferente no prato, porque uns são ricos e outros pobres, parece um retrato a preto e branco, saído de uma reportagem antiga – muito antiga – da RTP Memória. Do tempo em que as crianças começavam a sentir, logo nos primeiros anos de escola, de que lado da barricada estavam e, acima de tudo, como seria difícil, nalguns casos impossível, saltar o muro para o outro lado. É uma distinção evidente e feita à vista de todos, entre pares, com uma mensagem inequívoca: afinal, aqui dentro, não são todos iguais. Distinguir crianças dentro de uma escola – casa que tem como missão primeira garantir que, dali, partem todos iguais para o mundo – apouca o Ensino na sua capacidade de dar velocidade a quem começa a corrida uns bons metros atrás da casa da partida. Fazê-lo à mesa, num momento de partilha e convívio entre colegas e amigos é particularmente indecente. Não conhecia a Escola Salesianos de Manique, mas fui pesquisar. Encontrei o site deles onde partilham, clara como água, a sua missão: “o Projeto Educativo-Pastoral Salesiano (PEPS) orienta e guia um processo educativo no qual as múltiplas intervenções, os recursos e as ações se entrecruzam e se conjugam ao serviço do desenvolvimento gradual e integral das crianças e dos jovens, numa gramática que vai para além da escolar, a gramática do coração”. Em matemática estão aprovados: de facto, 1,46 euros por refeição é muito pouco. Mas os testes de “gramática do coração” fazem-se, diariamente, dentro e fora da sala de aula. E também à mesa, ente iguais, onde todos se alimentam do sonho de que o mundo pode ser melhor do que isto.
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