menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Opinião: Decência e respeito pelo cargo

11 86
20.02.2026

Compre a versão digital

CIM Região de Coimbra Arganil Cantanhede Condeixa-a-Nova Góis Lousã Mealhada Mira Miranda do Corvo Montemor-o-Velho Mortágua Oliveira do Hospital Pampilhosa da Serra Penacova Penela Soure Tábua Vila Nova de Poiares

Região Centro Aveiro Cast. Branco Guarda Leiria Viseu

Compre a versão digital

Opinião: Decência e respeito pelo cargo

Há uns dias, Donald Trump, o Presidente dos Estados Unidos da América, publicou nas suas redes sociais um vídeo de inteligência artificial em que retrata como macacos o ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e a sua esposa, a ex-primeira-dama Michelle Obama. É um vídeo (promovido pela fação MAGA – Make America Great Again) a favor da teoria de conspiração – nunca provada – de que a derrota de Donald Trump nas Presidenciais de 2020, contra Joe Biden, resultou de uma fraude eleitoral contra o atual chefe de Estado norte-americano. O casal Obama aparece no vídeo a rir, com os rostos “colados” em cima de corpos de macacos. A iconografia, aqui, não é inocente – quase nunca é, aliás. A comparação entre afro-americanos e símios é um estereótipo antigo, comummente utilizado em comunicações racistas, por norma vindas dos movimentos supremacistas brancos. Em comunicado, a Casa Branca rejeitou o que chamou de “falsa indignação” dos críticos. Karoline Leavitt, secretária de imprensa da Casa Branca, sugeriu aos jornalistas que noticiassem “algo que realmente importe ao público norte-americano”. Trump justificou-se, dizendo que só tinha visto o início do vídeo – que teria sido publicado por um elemento da sua equipa – e, portanto, desconhecia aquela parte do vídeo. Questionado pelos jornalistas sobre um eventual pedido de desculpa, respondeu que não tinha cometido nenhum erro. Ao fim de poucas horas, o vídeo, entretanto apagado das redes sociais do presidente, tinha milhares de likes. Quando questionado sobre este episódio lamentável, Obama resumiu o que se passa atualmente no espaço público: “Há uma espécie de circo a acontecer nas redes sociais e na televisão, e a verdade é que parece não haver nenhuma vergonha em relação a isso, mesmo entre pessoas que antes sentiam que era necessário ter algum tipo de decência e respeito pelo cargo”. É um excelente resumo dos tempos que vivemos: uma espécie de circo, feito com coisas muitas sérias, que parece não envergonhar ninguém. Discursos que, até há bem pouco tempo, seriam unanimemente condenados por desrespeitarem as mais básicas e elementares normas de convivência social, passaram a ser não só tolerados como até louvados – milhares de likes em poucas horas – ao abrigo de uma certa ideia de liberdade de expressão que não passa de uma desculpa para legitimar discursos ofensivos e inaceitáveis, de ódio, racistas, misóginos e xenófobos. A liberdade de expressão – um direito inalienável num Estado democrático – não legitima o insulto, nem a agressão. Quando alguém com responsabilidades sociais e políticas mundiais se comporta desta forma, está a alterar o padrão normativo que rege as intervenções das pessoas no espaço público: “se ele pode dizer isto, então, eu também posso”. A publicação de Trump recebeu várias críticas, vindas de vários setores da sociedade norte-americana, mas também recebeu milhares de likes de pessoas que se revêm neste tipo de discurso racista e insultuoso. É inegável que o discurso público está em transformação: a pandemia da Covid-19 deu o pontapé de saída, juntaram-se as ideologias de extrema-direita e as redes sociais fizeram de rastilho para a disseminação dos discursos extremistas. O risco maior é o da normalização destes comportamentos intoleráveis, principalmente quando vindos de quem tem responsabilidades acrescidas. Não, o chefe de Estado norte-americano não pode comparar afro-americanos a símios. Não, o Presidente dos EUA não pode usar estereótipos racistas. Ninguém pode – mas ele ainda menos. Obama resumiu bem porquê: decência e respeito pelo cargo.

Deixe o seu Comentário Cancelar resposta

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).

Guardar o meu nome, email e site neste navegador para a próxima vez que eu comentar.

Δdocument.getElementById( "ak_js_1" ).setAttribute( "value", ( new Date() ).getTime() );

Opinião: O primado da moral

Opinião: Decência e respeito pelo cargo

Opinião: As feridas saram, mas a dor continua

Bodas de Prata (quase) debaixo de água

Opinião: O primado da moral

Opinião: Decência e respeito pelo cargo

Opinião: As feridas saram, mas a dor continua

Copyright © 2025 Diário As Beiras. All Rights Reserved

Política de privacidade


© Diário As Beiras