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“Estes anos são viagem, mas não...”

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17.03.2026

Braga habituou-se, ao longo das últimas décadas, a orgulhar-se de ser uma cidade jovem, dinâmica e universitária. Esse orgulho é justificado. Todos os anos, milhares de estudantes chegam à cidade para estudar numa das instituições de ensino superior mais prestigiadas do país, a Universidade do Minho. Quem vem de fora do concelho, encontra um dinamismo académico pujante, que impulsiona projetos, ideias e inovação. Porém, isso termina quando concluem a licenciatura ou mestrado. Formam-se engenheiros, economistas, cientistas, gestores e investigadores altamente qualificados. O problema é que muitos deles acabam por construir o seu futuro... longe de Braga. Este é um paradoxo que a cidade ainda não enfrentou de forma suficientemente séria. Braga tornou-se muito competente a formar talento, mas continua a ter dificuldades em retê-lo. Quando chega o momento de iniciar uma carreira profissional, muitos jovens percebem rapidamente que as oportunidades mais atrativas não estão aqui. Procuram-nas no Porto, em Lisboa ou no estrangeiro. E partem. Seria fácil aceitar este fenómeno como inevitável. Afinal, a mobilidade faz parte do mundo contemporâneo. Mas essa explicação esconde uma questão mais profunda: que estratégia tem Braga para reter o talento que forma? Durante anos, a cidade foi celebrando o crescimento da universidade e o aumento do número de estudantes, mas raramente se discutiu com a mesma intensidade aquilo que acontece depois da licenciatura ou do mestrado. A verdade é que o tecido económico local continua, em grande medida, assente em setores tradicionais e em estruturas empresariais de pequena ou média dimensão. Embora existam empresas inovadoras e projetos interessantes, estes ainda não têm escala suficiente para absorver a quantidade de talento altamente qualificado que todos os anos sai da universidade. E aqui entra inevitavelmente a dimensão política, onde a estratégia tem de compreender as vertentes da habitação, da mobilidade e do empreendedorismo. É possível permanecer em Braga quando não encontramos casa, após o início da nossa vida laboral ativa? É possível fazer de Braga a incubadora para nossa ideia de negócio, que inclui mais do que um gabinete e apoio burocrático? É possível querer trabalhar em Braga quando demoramos mais tempo a chegar aos polos empresariais da nossa cidade do que a outra cidades vizinha? Cidades que conseguem reter talento não o fazem por acaso. Fazem-no porque existe uma estratégia clara para atrair investimento qualificado, estimular a criação de empresas inovadoras e construir verdadeiros ecossistemas de inovação. Braga tem iniciativas meritórias nesse caminho, mas a ambição coletiva parece muitas vezes ficar aquém do potencial da cidade. Falamos muito da importância da Universidade do Minho para Braga, mas continuamos a tratar essa relação como um dado adquirido, e não como um motor estratégico de desenvolvimento económico. O risco é transformar a cidade numa espécie de plataforma de formação de talento para outros territórios. Braga acolhe estudantes, qualifica-os, prepara-os para o mercado de trabalho... e depois vê muitos deles partir para lugares onde encontram mais oportunidades. Uma cidade que quer afirmar-se no século XXI não pode limitar-se a ser um bom lugar para estudar. Tem de ser também um lugar onde vale a pena ficar, trabalhar e construir uma carreira. E isso exige mais do que discursos sobre juventude e inovação. Exige visão política, ambição económica e uma estratégia clara para ligar conhecimento, investimento e desenvolvimento. Porque, se Braga continuar a celebrar apenas o número de estudantes que entram na universidade, mas ignorar o número de jovens qualificados que acabam por sair da cidade, estará a confundir um sucesso académico com um fracasso estratégico. Talvez esteja na altura de Braga deixar de se limitar a celebrar o talento que forma, e começar finalmente a preocupar-se com o talento que perde. Todo o destino é partir, mas Braga tem de dar as condições para ficar.

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