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“Filomena”

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15.10.2021

Há mais de 20 anos que uma mulher me inquieta. Não a conheço. Nunca lhe toquei. Vejo-a pontualmente na televisão. Leio-a, por vezes, nos jornais. O que me prende a esta mulher é o olhar morto. Há nele o gelo do deserto. O vácuo das manhãs. Um fedor que amputa o viver.
Este ser que me crava a mente é Filomena Teixeira. É mãe de Rui Pedro, criança de Lousada desaparecida desde 4 de março de 1998. Basta rebobinar uns anos para ver a evolução do rosto desta mulher que recusar desistir. Tem dentro dela uma bomba relógio que ninguém compreende porque ainda não rebentou. Só uma mulher de alma excelsa pode continuar a fazer estrada com a ravina pela frente.
O que vale a palavra acreditar? Seguir em frente quando a rouquidão da noite esmaga o peito. Como se consegue compreender as dificuldades que todos nós invocamos quando vemos e sentimos este nada? Filomena acarta uma medalha onde está escrito: “A esperança nunca morre”. Questiono-me em que fio de sangue está a luz que abre a porta a este louco querer. Alimento amargo que solta demónios, caricatura rostos. Um vómito à esperança que confronta com a dança da ilusão. São assim os........

© Correio do Minho


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