“Na tua face”
A face oculta da Lua ocupa um lugar singular no imaginário contemporâneo: é simultaneamente objeto de descrição científica e figura filosófica do limite. A mecânica celeste explica o fenómeno com precisão ao mostrar que a rotação sincronizada do satélite faz com que este exponha sempre a mesma face à Terra. Contudo, a inteligibilidade física não dilui a questão simbólica. Nesse hemisfério invisível reside a imagem persistente de tudo o que existe sem se oferecer imediatamente ao olhar. Não se trata apenas de geologia lunar, mas de uma pedagogia do conhecimento: há realidades que exigem mediação, método e tempo para se tornarem pensáveis. Se pensarmos bem, estamos rodeados de lados ocultos. Já Sérgio Godinho perguntava: “Quantas faces ocultas na face visível da Lua?”. Por vezes, acreditamos estar a caminhar em linha reta rumo ao futuro, sempre mais sábios do que os que nos antecederam. No entanto, de quando em quando, o passado ergue-se diante de nós e impõe-nos uma lição de humildade. Foi o que aconteceu com o Mecanismo de Anticítera. Resgatado do mar em 1901, perto da ilha grega de Anticítera, e datado entre os séculos II e I a.C., parecia, à primeira vista, um amontoado de bronze corroído. Hoje sabemos que é a face visível de uma máquina extraordinária, capaz de calcular ciclos astronómicos com uma precisão espantosa. Um pequeno universo mecânico, feito de engrenagens e de inteligência, que permaneceu submerso durante quase dois milénios e continua rodeado de silêncio: não conhecemos com certeza o autor, nem sabemos quantos achados semelhantes se perderam sem deixar rasto. Os dados disponíveis permitem aferir a sua singularidade. Estudado sistematicamente a partir de meados do século XX por Derek de Solla Price e, mais tarde, por equipas científicas........
