“Coelhinho da Páscoa, o que trazes...”
Livros, Música e Liberdade. Abril chega com flores nas ruas e memória nas mãos. É um mês que nos recorda o essencial: consciência, conhecimento e liberdade. No dia 23 de abril celebra?se o Dia Mundial do Livro, data que, em Barcelona, ganha um brilho especial ao coincidir com a festa de Sant Jordi, padroeiro da Catalunha. Nesta celebração, também conhecida como Dia do Livro e da Rosa, a cidade transforma-se numa enorme livraria e florista ao ar livre, sendo tradição oferecer um livro e uma rosa às pessoas queridas. Esta prática inspira-se na lenda de São Jorge, que matou o dragão para salvar a princesa. As rosas evocam amor e coragem: conta-se que do sangue do monstro nasceu uma roseira. Assim, a tradição entrelaça amor, cultura e literatura. Em Portugal, abril é o mês da música ao serviço da liberdade conquistada na Revolução dos Cravos. Hinos de intervenção, como ‘Grândola, Vila Morena’, de Zeca Afonso, e canções de amor que serviram de sinal para a saída das tropas dos quartéis, como ‘E Depois do Adeus’, de Paulo de Carvalho, marcam a memória coletiva e mostram como a arte pode mudar o rumo da história. A música, as artes e as humanidades são motores de alerta e de luta incansável, colocando a inteligência e a criatividade individuais ao serviço de um povo e da sua identidade cultural. Podia mencionar vários nomes de outros países e lutas. Mas prefiro focar-me no futuro e na esperança, com o exemplo de um artista porto-riquenho de 32 anos: Benito Antonio Martínez Ocasio [nome artístico: Bad Bunny, i.e., Coelhinho Mau]. Em 2026, tornou-se o primeiro artista a conquistar o Grammy de Álbum do Ano com um disco inteiramente em espanhol, Debí Tirar Más Fotos – um gesto simbólico da força global da língua e da cultura latino-americanas. Porto Rico é um território dos Estados Unidos desde 1898 e os seus habitantes são cidadãos norte-americanos desde 1917, apesar de a ilha não ter o estatuto político de Estado. Benito tem assumido posições públicas sobre a identidade porto-riquenha, os direitos civis e a imigração, insistindo que a segurança e a política migratória não podem justificar a desumanização nem a perda de direitos fundamentais. Usa a sua visibilidade para defender a dignidade de quem migra, a valorização das raízes porto-riquenhas e o respeito pela diversidade, unindo intervenção cívica e criação artística. A sua resiliência não assume a forma de um punho fechado, mas a de uma raiz. Canta sobretudo em espanhol, apesar de ser fluente em inglês. Aos críticos, lembra que o inglês também não é a primeira língua da América. A sua mensagem é clara: a música é universal e não precisa de tradução para ser sentida. Benito regressa às origens, ao sotaque e aos ritmos, privilegiando escrever as letras das suas canções na sua língua materna. É um gesto de amor pela origem, transformada em força motriz: a raiz de onde tudo floresce. No meio do despojo, Benito escolheu ficar inteiro. Ora, o ‘EU’ constrói-se assim – não como vitrina narcísica, mas como pertença: “EU sou porque venho de”; “EU sou porque caminho com”. De certa forma, as escolhas de Benito traduzem o espírito do Dia Internacional da Consciência (5 de abril): a consciência como guia para a paz, a tolerância e o respeito mútuo. Na canção ‘Lo Que Le Pasó a Hawaii’, Bad Bunny usa o Havai como metáfora de perda cultural e territorial. Fala de um lugar belo por fora, mas ferido por dentro. A canção expõe o apagamento da língua, da memória e da voz de um povo, convertendo essa dor numa afirmação de pertença e de resistência. O foco não é apenas geográfico; é identitário. O tema assume a forma de um apelo – quase súplica – para que Porto Rico não permita que a história se repita e não se torne, ele próprio, num território colonizado, gentrificado e culturalmente silenciado: “Não largues a bandeira, nem esqueças o lelolai. // Não quero que façam contigo o que se passou no Havai.” Esta reflexão remete-me para outra ferida, mais íntima: quando o amor se torna posse; e a intimidade, violência. Onde devia haver palavra, cresce a ameaça; onde encontro, instala-se o controlo; onde abraço, ergue-se um cerco. A casa torna-se fronteira armada; o outro, alvo. Recordo o filósofo Jürgen Habermas (1929-2026), que defendeu que a humanidade se constrói no agir comunicativo – no diálogo entre iguais e na força do melhor argumento, não no argumento da força. Para Habermas, a vida comum só é justa quando assenta no reconhecimento mútuo, na palavra partilhada e na validade intersubjetiva do que dizemos uns aos outros. A agressão doméstica é o inverso desse princípio: não procura entendimento, procura dominar. Não escuta, instrumentaliza; não pergunta, impõe; não comunica, ocupa. Quando alguém agride quem partilha a sua vida, falha como companheiro e como cidadão, porque rompe o pacto mínimo da humanidade: negar ao outro a dignidade que exige para si. A mesma lógica que transforma uma ilha em mercadoria transforma uma pessoa em objeto. Habermas chamou-lhe a colonização do mundo da vida: quando as relações humanas passam a ser tratadas como territórios de apropriação. E toda a apropriação começa numa mentira antiga – a de que amar é possuir. Não é. Amar é reconhecer a alteridade. É reconhecer a liberdade do outro. Respeitar a identidade e a diversidade não é moda: é fundamento civilizacional. Respeitar diferenças de género, origem, linguagem ou modo de viver é recusar a força como argumento e preservar a possibilidade de convivermos sem nos reduzirmos. Sem transformar ninguém em território de conquista. À luz de Habermas, cada voz silenciada é uma perda: um fragmento da racionalidade comunicativa que deixa de poder corrigir injustiças e de reorientar a vida em comum. Talvez seja essa a lição que ecoa da música de Bad Bunny: afirmar sem esmagar, pertencer sem excluir, lutar sem perder a ternura. A luta mais difícil raramente recebe aplausos. É a luta de quem decide interromper heranças de violência, de quem recusa repetir o grito que recebeu, de quem se ergue sem humilhar ninguém. Há revoluções silenciosas que começam devagar e mudam tudo. Esse silêncio não é rendição; é um silêncio que afirma (como uma raiz). É um sorriso que não encobre a dor, mas a nomeia e a atravessa. É ternura que resiste, consciência que recusa a expropriação da dignidade – seja da terra, do corpo ou da voz. É a declaração tranquila de que nenhum ser humano é território de conquista, nenhum povo é paisagem disponível, nenhuma identidade pede autorização para ser inteira. Abril não é uma data no calendário. É uma exigência. É consciência. A rosa não nasce só do sangue do dragão; nasce do que recusamos repetir. Fica a esperança: continuar sem ceder à posse, lutar sem ceder ao ódio, existir sem pedir desculpa. Mantendo um sorriso que não esquece, mas transforma.
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