“‘Asfixiar a besta’: a escolha...”

O que se passa em Portugal no domínio da educação inclusiva não é um problema de gestão, nem o resultado de más decisões técnicas avulsas.
É uma opção política consciente, conhecida como estratégia «starve the beast» (‘asfixiar a besta’).
Esta estratégia consiste em asfixiar financeiramente um serviço público (a ‘besta’) até que ele falhe, para depois usar esse fracasso, cuidadosamente provocado, como prova de que “o modelo não funciona”.
Apesar de a expressão ter nascido no contexto da política orçamental norte-americana, o mecanismo é universal. Bruce Bartlett descreveu este mecanismo num texto publicado em 2007 na Independent Review. A estratégia é simples: retiram-se recursos a um serviço público essencial, impedindo, assim, o seu funcionamento adequado.
Quando o serviço começa a falhar – porque tinha de falhar –, conclui-se que o modelo “não produz os resultados esperados”. Com ar grave e tecnocrático, anuncia-se: “é preciso repensar”.
Esta estratégia tem qualquer coisa de cruelmente simples, quase primária. No texto de Bartlett, ‘asfixiar a besta’ é mais do que um slogan: é uma metáfora de controlo assente numa lógica antiga, próxima da história do burro e da cenoura.

Na fábula, o burro avança não por compreender o caminho ou confiar no destino, mas porque reage a estímulos imediatos. Em versões mais cruas (que Bartlett evoca ao recuperar a origem literal da expressão), a lógica é ainda mais simples: priva-se o animal de alimento até que, enfraquecido, aceite a única opção disponível. Não há escolha consciente, apenas rendição.
Bartlett demonstra que o objetivo da estratégia ‘asfixiar a besta’ não é tornar o........

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