“ISLAMABAD? O que nasce torto,...” |
Hoje,11 de abril, deverão ter início as negociações entre os EUA e o Irão. A ordem de trabalhos é o acerto de um cessar-fogo, durante duas semanas. Na verdade, tais conversações estão previstas para um hotel de Islamabad, no Paquistão. Pelo que se sabe, não serão bem negociações diretas: tais conversas serão intermediadas por paquistaneses que circularão de sala para sala, ou seja, entre as salas onde as delegações norte-americana e iraniana estarão, respetivamente, instaladas. Vamos deixar de lado aspetos que relevam, sobretudo, para assuntos políticos internos de ambos os Estados, como, por exemplo, quem integra as respetivas delegações de negociadores. J.D. Vance, por um lado e, por outro, iranianos da cúpula do regime, embora não esteja presente o líder supremo. Este continua literalmente desaparecido em combate, circulando rumores de que estará inconsciente, entre a vida e a morte, sendo, por conseguinte, uma espécie de líder de fachada. O que começa mal, dificilmente se endireita! E, neste caso, poderemos perguntar quais as expectativas que o mundo e a Europa, em particular, têm relativamente ao resultado dessas negociações. Sublinhe-se: negociações sobre uma trégua de quinze dias, numa guerra cuja motivação imediata de quem a desencadeou não é percetível e cujos contornos formam um novelo de equívocos, de aparentes laivos de ignorância e de mau planeamento (ou ignorância dos planos, porventura, até bem elaborados). Ou seja, o que esperar de negociações sobre algo que não começou bem? Vamos contextualizar o ceticismo que pessoalmente sinto: é claro que o regime ditatorial obscurantista iraniano, assente numa guarda revolucionária que é inqualificável quanto à respetiva cosmovisão ultrarreacionária e sanguinária do mundo e do seu papel, numa alegada revolução islâmica (xiita), não se poderia suportar muito mais tempo. A civilização e a cultura persas são um legado vivo de História, conhecimento, tradição que anda a ser destruído pelos aiatolas (líderes religiosos do Irão, supostamente especialistas em jurisprudência islâmica) e pela respetiva autoproclamada revolução. Mais: é evidente que nem a religião (como nós, no Ocidente e na Europa a entendemos) é para ali chamada, nem a questão do regime iraniano obscurantista e sanguinário é um assunto unicamente confinado ao estado iraniano. Desde logo, os intentos revolucioná-ios expansionistas desse regime, levam o terrorismo a toda a região e, potencialmente, ao mundo inteiro. As implicações económicas mundiais, estando o regime sentado em cima de barris de petróleo e de gás, são imensas e incontroláveis (imprevisíveis).A aliança militar e de cooperação tecnológica assumida entre o Irão, a Rússia e a China, embora permita à China dispor de uma espécie de instrumento de destabilização do Ocidente (diríamos, nós, embora um pouco redutoramen- te, dispor de um idiota útil”, a saber, o Irão dos aiatolas), naturalmente, não pode ser analisada numa perspetiva unicamente trilateral e de “efeito interno”, circunscrito às três partes. No entanto, se esse estado de coisas e de instabilidade (risco) teria de acabar, importa o modo como proceder para, precisamente, o acabar. Não seria conveniente chispalhar fagulhas num barril de petróleo que poderá explodir e matar-nos a todos. Para não falar na problemática “leitmotiv” oficial de grande parte de tudo isto, a saber, a questão nuclear. Dito isso, Trump aparentemente agiu por impulso, telecomandadamente (parece) por Natanyahu e fazendo “tábua rasa” de tudo o que seja ponderação e conhecimento do mundo (e do Irão). Ou seja, a menos que exista um plano ulta elaborado e ainda não percetível, agiu como parece ser realmente: de forma ignorante e “básica”, pensando que o mundo é igual a si, pensa como ele e move-se como ele! Por exemplo, nem se deve ter lembrado – ou melhor, ignorou quem o avisou – de uma porção de terra denominada Estreito de Ormuz! E mais – sem que isso seja um apelo à guerra! – quem se mete numa loucura como aquela em que a administração norte-americana se meteu (nos meteu, a todos) tem de acabar o trabalho – ou seja, tem mesmo de depor o dito regime. Deixa-lo ficar, ainda que relativamente dizimado, significa fazê-lo perdurar, a prazo, com mais vigor e, por conseguinte, com mais perigo! As divergências entre os 15 pontos, os 10 pontos, os não sei quantos pontos das propostas americana e iraniana, dificilmente serão suscetíveis de harmonização, de sobreposição. Já sabemos que Trump quer pôr fim à ordem internacional que os EUA, em grande medida, construíram e na qual, nós, Europa, nos inserimos e com a qual vivemos desde a Segunda Grande Guerra. O Mundo também é diferente e os pressupostos dessa ordem “pós 1945” já não serão, em medida significativa, realistas. Mas uma ideia de Direito (de Direito Internacional) deveria ser, no mínimo, o catalisador das mudanças (porventura, inevitáveis) e da construção de uma nova ordem. Mesmo refletindo relações de força, mas não de selvajaria! Senão, de uma forma ou outra, o mundo deixará de ser minimamente seguro, ordenado. Enfim, será inevitavelmente menos humano e assistir-se-á a um retrocesso civilizacional. A prazo. A visão otimista é aquela que aponta o estado de incerteza, de aparente irracionalidade e de retrocesso em que se esboçam, aparentemente, as relações internacionais atuais (para Trump, “transacionais”!), como sendo uma desordem natural e passageira de um mundo em transição. Assim sendo (sendo-se otimista), importa notar que, apesar de tudo, mesmo sem Trump, as coisas estariam a mudar; a nova ordem seria (será?) cada vez mais emergente. Mas essa emergência, essa construção, seria diferente, com menos riscos (ou, pelo menos, mais controlados, porque antecipados) e sem coisas que, tal como a atual guerra no Irão, dificilmente se endireitarão rapidamente.
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