“Entre a velha “pax americana”...”

A velha ordem está, a olhos vistos, a desaparecer. É essa a sensação que temos (senão, mesmo, uma conclusão?), observando o que tem sucedido. O mundo e, sobretudo, a Europa, desde 2022, foram confrontados com eventos e guerras que nos remetem para alguns “déjà vu” da História. Mesmo sabendo que, na verdade, guerras sempre foram existindo, por todo o lado e ininterruptamente… E mesmo tentando superar uma tendencial visão eurocêntrica que poderá levar-nos a amplificar aquilo que mais proximamente da Europa tem sucedido (Ucrânia, Médio-Oriente), o facto é que, agora, assistimos a eventos e confrontos que decorrem do que parece ser uma alteração dos pressupostos em que assentava a velha e tradicional ordem. Ordem essa existente desde a 2ª Guerra Mundial e construída por iniciativa norte-americana. Uma “pax americana”, partilhada comummente pela Europa. Assistimos, agora, a guerras expansionistas, à tentativa de reconstrução de fronteiras imperiais e de “áreas de influência” de outros tempos, a novas correlações de força militar, a uma clara e, frequentemente, assumida clivagem (luta) Este-Oeste, Sul (global ou não) contra o “menos Sul”, Ocidente e anti ocidente. Trump e a nova administração norte americana (versão atual, tipo 2.0 ou, como se vulgarizou dizer, “transacional”), aceleraram e disseminaram tal sensação. No entanto, folclore, pantominices e narrativas que mais parecem ser tontices, não nos podem distrair das alterações tectónicas que, aparentemente, na ordem internacional, estão em curso. Importa esclarecer, a este propósito, uma questão: Trump é realmente um tonto. Um presidente que mais não será do que uma espécie de “erro de casting” histórico e que a História recordará nesses termos. Um evidente risco que as democracias têm de prever e equacionar, na medida em que resulta (a sua ascensão ao poder) do jogo democrático. Parece nitidamente impreparado para conseguir antever a reação e os comportamentos dos outros (sejam opositores, sejam Estados, Chefes de Estado, povos ou mesmo “amigos… Musk o dirá!). Mesmo sentado em cima do poder militar e económico da maior potência do velho mundo, já é demasiado evidente que “o rei vai mesmo nu” e só por estranheza e conveniência tática é que ainda ninguém disse o que parece óbvio, nem agiu em conformidade – ou seja, isso mesmo, que “o rei vai nu”! Pessoalmente, olho para Trump e revejo alguns dos piores (e muitíssimas vezes infundados) “clichés” e generalizações de aspetos sociológicos norte-americanos: a incapacidade de ver e de entender o mundo de uma forma diferente do que o modo básico de um certo mundo e visão norte-americanos, profundamente “sem mundo” e, nesse sentido, provinciano. Embora de um provincianismo com uma dimensão enorme e impactante em todo o mundo. No entanto, não creio que, mesmo independentemente da “circunstância Trump”, as coisas não mudassem! Desde a administração Obama que os EUA estão focados, estrategicamente, no Indo-Pacífico e não consideram a Europa e os seus aliados ocidentais como prioritários. Desde Obama que os EUA aumentaram a respetiva presença militar na região e todas as administrações, desde então, têm entendido que a presença e a influência americanas na Ásia e no Pacífico são vitais para a manutenção da hegemonia dos EUA e para conter as estratégias expansionistas da China. A Europa, por via dessa visão, foi desconsiderada estrategicamente e, com Trump, mesmo política, histórica e civilizacionalmente. Mas o problema de fundo ultrapassa, de todo o modo, a perspetiva europeia. Ora, em função do desenlace das guerras existentes e da capacidade de os EUA (mesmo independentemente de Trump) conseguirem dar a volta a uma tendência de fragmentação e de dispersão do poder tecnológico e económico, poderá demorar mais ou menos tempo a surgirem novos alicerces (pressupostos) de uma nova ordem em emergência. Que cenários poderão permitir-nos vislumbrar essa nova ordem emergente? Ora, podemos, creio eu, colocar, com propriedade, a hipótese de um retorno a uma espécie de “guerra fria”, agora, entre a influência de Washington e de Pequim. De resto, existe em construção progressiva, desde há alguns anos, em vários domínios (por exemplo, petróleo e assuntos militares) uma aliança entre a Rússia, a China e o Irão. Assumida pelos respetivos líderes. Um segundo cenário poderia antever-se da seguinte forma: as circunstâncias e os interesses difusos, divergentes entre os vários poderes emergentes, levariam não a um reagrupamento bipolar do mundo, mas sim a uma fragmentação relativa. A uma espécie de retorno à lógica do “concerto das Nações” do século XIX europeu. Uma paz periclitante, mas assente nos equilíbrios entre vários blocos (o americano, o europeu-ocidental, o chinês, o russo, por exemplo). Não sendo esses dois cenários ideais – sobretudo para quem se habituou ao “velho mundo” e ao multilateralismo – serão sempre melhores do que um terceiro que também colocamos em hipótese: a fragmentação de poderes, de pequenas potências ou aspirantes a potências e a tensão permanente de plúrimos e divergentes interesses nacionais e, por conseguinte, a imprevisibilidade total na ordem (desordem) inter- nacional. Muitos polos de instabilidade e de guerras. Um estado de desordem e de anarquia – pelo menos, latente – em permanência. O futuro próximo dar-nos-à pistas mais conclusivas.

Deixa o teu comentário

Serviços de audiotexto

Subscrever NEWSLETTER

Subscreva gratuitamente as newsletters e receba o melhor da actualidade e os trabalhos mais profundos.


© Correio do Minho