“São João de Braga: quando a...”
Escrever sobre o São João de Braga depois de terminadas as festividades é um exercício de memória. A cidade regressa gradualmente ao seu ritmo habitual. As luzes apagam-se, os palcos são desmontados e as multidões dispersam. No entanto, permanece algo que não desaparece com o fim da festa: a consciência de que estamos perante uma das mais extraordinárias manifestações culturais do país, uma celebração onde história, tradição, fé e identidade coletiva se entrelaçam de forma singular. O São João de Braga ultrapassa largamente a dimensão de uma simples festa popular. É um património vivo, construído ao longo de séculos por sucessivas gerações que encontraram nesta celebração uma forma de afirmar a sua pertença à cidade, transmitir valores e preservar memórias. Num tempo marcado pela rapidez da informação e pela constante transformação dos hábitos sociais, esta capacidade de manter viva uma tradição secular merece ser valorizada e refletida. Ao longo das últimas semanas, revisitei documentos históricos, acompanhei iniciativas culturais e procurei compreender melhor as raízes desta celebração. O resultado dessa viagem foi a confirmação de uma ideia simples: o São João continua a ser um dos mais poderosos elementos da identidade bracarense. Uma das descrições mais fascinantes encontra-se nas Memórias Bracarenses, de Silva Thadim. Nas referências às festas realizadas em meados do século XVIII, Braga surge como uma cidade completamente transformada pela celebração. As ruas enchiam-se de música, danças, máscaras e representações populares. Havia quadras satíricas, cortejos, desafios entre grupos e uma intensa participação popular. Entre os episódios mais marcantes relatados pelo cronista destaca-se um enorme boi assado no Campo da Vinha, recheado com galinhas e coelhos, distribuído ao povo numa demonstração de abundância e generosidade. Próximo dali, um chafariz jorrava vinho enquanto clarins e atabales anunciavam a continuidade dos festejos. A cidade inteira parecia converter-se num grande palco onde cada habitante assumia um papel. Mais do que a........
