“Roleta russa”
Este jogo é talvez uma lenda, popularizada pela literatura e mais tarde pelo cinema. Conta-se que, pelo séc. XIX, prisioneiros russos eram forçados pelos seus guardas a atos de bravata com um revolver carregado com uma única bala. À vez, cada um teria de apontar para a própria cabeça e puxar o gatilho. Mais do que um jogo arriscado e estúpido, colocando a morte em lugar de destaque central, marca a imprevisibilidade da vida. A literatura e o cinema trouxeram-nos essa imagem de desesperança, esse desafio ao sentido da vida, enquanto exploração dos limites éticos. Mas a realidade é sempre mais surpreendente! O mundo parece cada vez mais apostado num jogo em que os limites éticos se esboroam, onde as regras longamente estabelecidas do direito internacional vão sendo esquecidas, onde o multilateralismo e a cooperação perdem sentido. Uma espécie de roleta russa que se justifica por si, desumanizando o conflito. No século XIX, em pleno período do imperialismo britânico, ficou conhecida a ideia do “Grande Jogo”, um conceito fictício criado por Kipling . O Império Britânico precisava controlar as rotas comerciais no continente, mas principalmente nos oceanos e mares. Isso era quase a “lei” – que o Império Britânico controlasse as rotas comerciais em todo o mundo, o aspeto básico da estratégia britânica. A preocupação central do imperialismo britânico era alargar o Império Britânico. O “Grande Jogo” era a ideia de que o inimigo mais importante do Império Britânico, era a Rússia Imperial, que exercia um controle crescente sobre a Ásia Central e ameaçava as colónias inglesas no Oriente Médio e na Índia, tentando ir para o sul, para o Afeganistão, e no Cáucaso – todo esse poder crescente da Rússia era considerado o principal inimigo do Império Britânico, e justificou uma intensa rivalidade geopolítica e militar. Por outras palavras, duas potências lutavam pela hegemonia. A insegurança e a instabilidade global marcou as décadas seguintes ; vale a pena ler e reler Ken Follet em A Queda dos Gigantes, e no seguinte O Inverno do Mundo. Alguns autores (vd. Edwards, 2003; Blank, 2012) referem que desde 1991, com a queda da União Soviética, se poderá ter entrado num ”novo Grande Jogo” , com atores diferentes, mas no fundo a mesma lógica de garantia de um poder hegemónico. Luta pelos recursos agora energéticos, pelo acesso aos metais raros, cada vez mais travada em termos militares. Em 1993, os Estados Unidos eram responsáveis por 19,1% do PIB mundial, competindo à China 4,3%. A União Europeia vinha no topo, com 23% do PIB mundial. Ainda de acordo com o Banco Mundial, em 2023, o quadro tinha-se alterado de forma significativa: nos três primeiros lugares, vinha a China (18,8%), os EUA (15%) e a União Europeia (14,5%). Em 2024, a China produziu 32% da produção industrial global, enquanto os EUA representaram 16%. A China também rivaliza cada vez mais com os EUA numa série de tecnologias modernas, desde veículos elétricos a inteligência artificial, e possui já uma marinha de águas profundas avançada e uma frota de caças modernos. Mas a China é também o maior importador mundial de petróleo, com um grau de dependência que se aproxima dos 72%. Os chineses são tidos por pacientes e pragmáticos, mas também por detestarem “perder a face”… Este é de facto o pano de fundo para esta roleta russa em que estamos todos envolvidos. Sem dúvida que o Irão remete para uma cultura milenar que sempre o Ocidente estranhou e repudiou, mas o que está verdadeiramente em questão, é o poder no quadro mundial, no retorno a uma época de imperialismo típica do séc. XIX. Nesta roleta russa orquestrada pelos Estados Unidos, o futuro já é hoje: uma marcada instabilidade nos mercados mundiais. A possibilidade de acréscimo significativo do preço do gás natural e do petróleo, tanto mais se a guerra for duradoura. E no pior dos casos, o quadro macroeconómico do costume: inflação e subida dos juros. E redução do poder de compra. Ah, e fragilidade financeira, que todo o sistema continua a ser pouco regulado. A dependência da Europa face à energia fóssil importada é sem dúvida elevada, o que coloca o revolver demasiado perto da nossa cabeça. Será necessário que a União Europeia não centre todos os esforços no acréscimo da militarização, mas em estratégias coordenadas de diversificação e reforço de stocks, em acelerar a transição para a energia descarbonizada, em reforçar uma política industrial que apoie tecnologias críticas e salvaguarde a competitividade.
Deixa o teu comentário
O Dia Internacional da Mulher...
Subscrever NEWSLETTER
Subscreva gratuitamente as newsletters e receba o melhor da actualidade e os trabalhos mais profundos.
