“Acidentes e Idade”
Era uma manhã clara. Os meus tios, ambos nos seus 75 anos, voltavam a casa, felizes como poucas vezes. Tinham ido conhecer os seus netos, tri-gémeos acabados de nascer. A viagem de duas horas estava quase a terminar; o carro era excelente, topo de gama, confortável e seguro. Comentavam o milagre do nascimento e a alegria do seu filho. Em sentido contrário, um jovem estudante universitário, regressava a Lisboa depois de uns dias de férias. Ia só, animado, preparado para a fase final da sua licenciatura. Imaginava, esperançoso, o futuro. A estrada corria por uma paisagem de grande beleza, mas com troços de perigo reconhecidos há muito. Tinha sido construída uma autoestrada, melhorando o trajeto e procurando eliminar esses pontos de risco, mas dificuldades de agenda do então 1º Ministro Durão Barroso atrasaram a sua inauguração e abertura. Depois? depois foi uma curva, uma ultrapassagem, uma baixa perceção do risco envolvido: um choque frontal. Três mortos na estrada. De imediato. Três vidas que ficaram no local. A responsabilidade pelo acidente? Havia seguros elevados, houve investigação. Sem margem para dúvidas, concluíram que foi um erro na perceção do risco e uma ultrapassagem sem domínio do carro. Inexperiência e excesso de velocidade. Do jovem estudante. Corre por aí agora uma petição para que pessoas com 75 ou mais anos de idade não possam conduzir. Argumenta-se que têm “declínio cognitivo, visual e motor”; diz que é “uma realidade inevitável”. Sorte a minha, só faço 75 anos em Junho, restam-me uns 2 mesitos, com capacidade mental! Enfim, é um caso; haverá tantos outros, e de sinal contrário. È certo que a taxa de mortalidade nas nossas estradas é demasiado elevada. Segundo o relatório diário de sinistralidade online da ANSR , só em 2026, registaram-se cerca de 44.063 acidentes, com 146 vítimas mortais e 641 feridos graves. Talvez mais, porque os dados são de ontem. As taxas são acima da média Europeia. O relatório em causa acrescenta ainda que Portugal tem o perfil de mortalidade urbana mais elevado da União Europeia, com uma taxa de 55% das mortes a ocorrerem em zonas urbanas, face a 39% na média europeia e apenas 27% na vizinha Espanha. Em 2025, Portugal registou 58 vítimas mortais por milhão de habitantes, um número superior à média europeia, que foi de 45. Alfredo de Sousa foi um dos mais reputados economistas portugueses. A sua visão foi determinante para a criação e o desenvolvimento da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, mas já antes disso tive a oportunidade de o ter como meu professor no Instituto Superior de Economia. Foi deputado à Assembleia Constituinte pelo PPD em 1975. Era um homem de uma inteligência notável, rigoroso e exigente. Em 1994, Alfredo de Sousa tinha 63 anos. Foi atropelado numa passadeira e morreu. Não manifestava qualquer indício de declínio cognitivo ou motor que fosse. Devemos então propor uma petição que proíba os seniores de conduzirem ou sequer saírem de casa, andarem na rua enfim. A partir talvez dos 60 anos, sei lá, quando forem para a reforma! Bem, fui procurar dados estatísticos, mais informação enfim. Que relação existe entre idade e acidentes em Portugal? O referido relatório de sinistralidade, da Autoridade Nacional, informa que 75,4% dos óbitos nas estradas correspondiam a condutores enquanto 16,6% eram passageiros e 8,0% peões. Qual a estrutura etária dos condutores? Não se sabe. Muito menos a responsabilidade relativa. Diz que aumentaram os acidentes em motociclos e nos velocípedes. Mostra ainda que a maior parte dos acidentes mortais ocorre nos sábados, e em julho. Lisboa e o Porto apresentam a mais elevada mortalidade absoluta. Diria que sem qualquer surpresa, uma vez que são os distritos com mais população. Primeira conclusão: a produção estatística deve ser rapidamente reformulada. É de todo insuficiente para permitir qualquer formulação de política pública que sustente a petição em causa. Olhemos então por outro lado e procurem-se outras fontes de informação. J.M.Trigoso apresentou em 2018 uma análise sobre a relação entre os jovens e os acidentes rodoviários; é publico. Estudou 3.228 casos. Entre 2015 e 2018, 8% dos acidentes com danos corporais ocorreram em jovens entre os 18 e os 24 anos; 3,8% na faixa etária entre os 45 e os 54 anos. Acima dos 65 anos, registou-se a taxa mais baixa de todos – apenas 0,8%. E a análise dos acidentes com dados materiais relata o mesmo comportamento. Um outro estudo analisou a distração nos condutores, em 2017, em Lisboa. Em veículos em movimento, 8,4% dos condutores que falavam ou manuseavam o telemóvel tinha menos de 30 anos, enquanto 9,1% andava entre os 30 e os 60 anos. Acima desta idade, apenas 2,9% o fazia. Um outro estudo, da Prevenção Rodoviária, observou para Portugal a presença de uma taxa de álcool mais ou menos elevada. Refere-se a 2013, e foram analisados 5392 condutores em Portugal Continental. A distribuição etária está clara no gráfico que se junta. Não foram registados condutores com mais de 65 anos com taxa de alcoolemia acima de 1,20 g/l, mas de facto é um problema real nas nossas estradas. O ultimo Relatório de Sinistralidade confirma-o, e permite que se equacione a probabili- dade de uma relação de causalidade com o excesso de velocidade. Mas mais uma vez, a informação estatística é insuficiente. Finalmente, gostava de citar um estudo Europeu sobre atitudes de segurança nas estradas. Foram avaliados os seguintes comportamentos: velocidade, distração, fadiga e álcool/drogas. O estudo conclui que o grupo etário até aos 34 anos, comparativamente com os mais velhos, se caracterizam por “maior aceitabilidade dos comportamentos de risco, menor perceção de risco e maior prevalência dos comportamentos de risco”. O problema nas nossas estradas é grave demais, os custos são demasiado elevados, para que a formulação das políticas públicas se baseie em opiniões ou na identificação de grupos sociais a abater. Nada permite justificar a pretensão da petição de fechar os seniores em casa, e deitar fora as chaves. Ou proibir os jovens de conduzir e ganhar experiência. Tem que basear-se em informação detalhada - que não existe, no reforço da educação e numa cultura de responsabilidade e respeito pelo outro.
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