“Habermas: por uma Constituição...”
A morte de Jürgen Habermas, a 14 de março de 2026, não representa apenas o desaparecimento de um dos mais influentes filósofos contemporâneos; marca também o enfraquecimento simbólico de uma tradição que sempre acreditou na política fundada na razão, no debate público e na legitimidade democrática. Num tempo em que a incerteza se tornou regra, a ausência de uma voz como a sua é particularmente sentida. Habermas foi, acima de tudo, um pensador da esperança exigente. Nunca confundiu realismo com resignação, nem cedeu ao cinismo fácil que tantas vezes domina o discurso atual. A sua obra insistiu que a validade política não pode reduzir-se à eficiência técnica ou à gestão económica. Pelo contrário, deve emergir de processos comunicativos inclusivos, onde a sociedade participe ativamente na construção das decisões que moldam o seu destino coletivo. É, precisamente neste ponto, que o seu pensamento sobre a Europa permanece vital. Ao longo de décadas, o filósofo alertou para o défice democrático estrutural da União. Denunciou uma integração conduzida por elites políticas e tecnocráticas, frequentemente alheadas das populações, descrevendo esse fenómeno como um “federalismo executivo” que compromete a génese do ideal europeu. O continente construiu-se como um sucesso financeiro, mas falhou ao afirmar-se como uma verdadeira comunidade política. Este desequilíbrio é hoje evidente. A fragmentação das........
