“Braga está a planear mobilidade...”
Multiplicam-se as decisões sobre o trânsito em Braga, mas continua por esclarecer a pergunta essencial: estamos a planear mobilidade ou apenas a reagir ao problema imediato? Nas últimas semanas, sucedem-se alterações de sentidos de circulação: a Rua de Goa, a Rua Beato Miguel de Carvalho, a Avenida 31 de Janeiro ou a Rua da Restauração são exemplos disso. Desligam-se semáforos na Avenida João XXI, permitindo velocidades reais acima dos 50 km/h no coração da cidade. Proíbem-se movimentos, como na Rua da Tomada, em Gondizalves. Decisões pontuais, dispersas, que parecem responder a problemas imediatos, mas que dificilmente revelam uma estratégia clara para a mobilidade. Com isto o trânsito melhorou? Não. A mobilidade melhorou? Também não. Mais surpreendente ainda é que, ao fim de oito anos de Vereação do Urbanismo, João Rodrigues começa agora a reverter decisões tomadas nesse período. Não se trata apenas de ajustar medidas, trata-se de uma mudança de direção que levanta dúvidas sobre a existência de uma visão consistente para a cidade. A maioria das decisões continua focada no carro, ignorando as causas estruturais da mobilidade em Braga. Estruturalmente não há um problema nas deslocações interurbanas (19%) nem nas de atravessamento (2%). Até o Ministro das Infraestruturas afirmou, a 18 de Março na Assembleia da República, que o Nó de Infias não vai resolver o problema do trânsito de Braga e que uma “hipotética variante” também não. Estruturalmente o problema a resolver é dentro do concelho, onde se dão 79% das deslocações. É preciso uma estratégia para isto, que não é resolvida com a Variante, com o Nó de Infias, nem com gestões de sentidos de trânsito. Braga não precisa apenas de gerir melhor o trânsito. É preciso decidir que Braga queremos ser e planear a mobilidade em função disso. Estas decisões procuram melhorar a fluidez do automóvel, mas não resolvem o problema. Há uma clara ausência de visão integrada da mobilidade. O padrão repete-se: facilitar o uso do carro, mas não mudar a forma como as pessoas se deslocam. Com estas decisões não se consegue transferência modal. Gerir o trânsito é ajustar sentidos, semáforos e acessos. Planear mobilidade é decidir como queremos que as pessoas se desloquem e criar as condições no espaço público para que esse desejo se torne realidade. Por este caminho vamos ter mais carros, mais dependência, mais congestionamento e menos qualidade de vida. O problema não está nas decisões de cada cidadão. Está no facto de estas decisões não resultarem de uma estratégia clara de mobilidade, mas sim de tornar as pessoas reféns do carro. Em Braga estamos todos reféns do carro, e muito por causa das opções urbanísticas e de espaço público que não se têm tomado. Braga precisa mudar o foco, precisa de dar prioridade às pessoas, não apenas aos veículos. Braga precisa de dar as condições urbanísticas para que o transporte público seja competitivo. Precisa reduzir as necessidades de deslocações com recurso ao carro. Precisa de reequilibrar o espaço público. Há muito que existem propostas e caminhos possíveis para uma mobilidade diferente em Braga, centrada nas pessoas, com transporte público competitivo e melhores condições para andar a pé ou de bicicleta. O problema não é a falta de soluções. É a falta de decisão. Mais do que alterações de trânsito, Braga precisa decidir como quer que as pessoas se desloquem e agir em conformidade. Porque a mobilidade não acontece por acaso. A mobilidade induz-se.
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