“Brasília - A imagem de N.ª Sr.ª...”

Assinalam-se amanhã, 20 de abril, os 66 anos da inauguração de Brasília como capital do Brasil. Trata-se de uma cidade construída de raiz, num local geograficamente mais acessível a todos os brasileiros. Foi inaugurada na tarde de 20 de abril de 1960, na presença de Juscelino Kubitschek de Oliveira, então Presidente do Brasil, e recebeu o seu primeiro ato oficial no dia seguinte, pelas 9h30, com a realização da primeira sessão solene do Congresso Nacional brasileiro. Nessa sessão, o Presidente do Brasil declarou, “sob a proteção de Deus, inaugurada a cidade de Brasília, capital dos Estados Unidos do Brasil”. Brasília foi a maior cidade do mundo construída durante todo o século XX, sendo hoje a terceira cidade brasileira mais populosa, apenas atrás de São Paulo e do Rio de Janeiro. Um dos primeiros edifícios construídos em Brasília, e também dos mais simbólicos, foi a igreja de Nossa Senhora de Fátima, conhecida como “Igrejinha da 307/308 Sul”. Trata-se do primeiro templo católico construído em Brasília, inaugurado em 28 de junho de 1958. Esta igreja é também conhecida por ter sido construída em apenas 100 dias, para pagar uma promessa de Sarah Kubitschek, então primeira-dama brasileira, feita em agradecimento pela cura de Márcia, a sua filha. A igreja de Nossa Senhora de Fátima tem duas particularidades: está assente em três pilares que suportam uma laje triangular inclinada, que faz alusão a um chapéu de freira; a outra particularidade é a imagem de Nossa Senhora de Fátima aí existente, construída por um artista bracarense. Sabemos que a região de Braga é conhecida pelos vários artistas de arte sacra que desenvolveram a sua atividade ao longo dos séculos. Daqui saíram inúmeras imagens religiosas que causaram e continuam a causar admiração em alguns dos principais edifícios religiosos de Portugal e até do mundo. Ao tomarem conhecimento da construção de uma nova capital no Brasil, e sobretudo da construção desta igreja, a “Revista Portugal Brasil”, dirigida por Aníbal Contreiras e Veloso de Carvalho, pediu a um santeiro de Braga que executasse uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, para ser oferecida à nova igreja, erguida num momento de angústia familiar, por solicitação da primeira-dama do Brasil. O hábil artista bracarense que construiu esta imponente escultura de Nossa Senhora de Fátima foi José Antunes, que tinha “mãos privilegiadas” para a arte santeira, bem demonstradas nesta “linda imagem. Linda - era a qualificação que a todos ouvíamos; linda — é o adjetivo mais próprio que percebemos para definir a expressão místico?maternal da imagem da excelsa Senhora” (Correio do Minho, 17 de janeiro de 1959). Depois de construída, a imagem de Nossa Senhora de Fátima, com 2,40 metros de altura, esteve exposta em vários locais simbólicos de Portugal antes de ser transportada para o Brasil. O primeiro local onde esteve exposta foi a Sé de Braga, onde foi admirada por milhares de bracarenses até ao meio?dia de 16 de janeiro de 1959. Para além dos populares presentes, assistiram a este momento profundamente emotivo José Maria F. de Araújo (vice?presidente da Câmara Municipal de Braga); António Fernandes de Araújo (vereador); Felicíssimo Campos (presidente da Junta da Província do Minho); Adolfo Santos da Cunha (presidente do Grémio do Comércio e procurador à Câmara Corporativa); Carlos Salazar (secretário particular do Governador Civil de Braga); o cónego Martins Gonçalves, entre outras individualidades. À hora marcada para sair da Sé Catedral de Braga, a imagem foi colocada numa camioneta de caixa aberta, que foi de imediato coberta por flores lançadas pelos populares. De seguida, sempre escoltada por um veículo dos bombeiros e acompanhada por autoridades civis e religiosas, percorreu vários concelhos do Minho, nomeadamente Barcelos, Guimarães, Vila Nova de Famalicão e Viana do Castelo. Durante este percurso, milhares de pessoas se aglomeraram para saudar Nossa Senhora de Fátima. Ao final da tarde desse 16 de janeiro de 1959, a imagem chegou ao Porto, onde ficou exposta no coração da cidade, concretamente na Capela das Almas, na Rua de Santa Catarina. No dia seguinte, 17 de janeiro de 1959, a imponente imagem de Nossa Senhora de Fátima seguiu em direção ao Santuário de Fátima, sendo colocada na Capela das Aparições, onde foi benzida às 11h00 de domingo, 18 de janeiro de 1959, pelo Arcebispo de Mitilene. De referir que as cerimónias que habitualmente decorriam no Santuário foram suspensas para que se pudesse proceder a esta bênção tão emotiva. Após a cerimónia, a imagem foi transportada para Lisboa, onde permaneceu alguns dias no Mosteiro dos Jerónimos, para que mais portugueses pudessem admirar tão majestosa escultura. Depois de ter estado em Lisboa, a imagem construída pelo artista bracarense foi transportada para Santos, no Brasil, a bordo do paquete italiano “Conte Grande”, e daí percorreu várias localidades brasileiras até chegar ao Rio de Janeiro, onde ficou sob a responsabilidade das autoridades religiosas da então capital do Brasil. Segundo o “Correio do Minho” de 16 de janeiro de 1959, os diretores da “Revista Portugal Brasil”, Aníbal Contreiras e Veloso de Carvalho, “vão realizar um documentário cinematográfico, filmado a cores, sobre o peregrinar da imagem de Nossa Senhora de Fátima, iniciando hoje as filmagens na Sé. Este documentário será, depois, projectado em todos os cinemas de Portugal e do Brasil”. Quando chegou a Brasília, assistiram à colocação da imagem na igreja o Presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek, e a sua esposa, Sarah Kubitschek. Nessa igreja foi descerrada uma placa comemorativa com a seguinte inscrição: “Este Santuário, primeiro de Brasília, foi mandado erigir em honra de N. S. de Fátima, por iniciativa da Sra. Sarah Kubitschek, em cumprimento de uma promessa”. Importa ainda referir que a inauguração desta igreja foi remarcada por três vezes: a primeira para 3 de maio de 1958, para coincidir com a comemoração do ano da primeira missa celebrada em Brasília, mas a obra atrasou?se e não foi possível realizar a cerimónia; a segunda para 13 de maio desse ano; e finalmente para 28 de junho de 1958, data em que foi efetivamente inaugurada. A história da imagem de Nossa Senhora de Fátima oferecida à primeira igreja de Brasília revela não apenas a devoção que uniu Portugal e Brasil, mas também o talento artístico bracarense e a forte dimensão simbólica que marcou a construção da nova capital.

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