“Trump, o presidente-anedota ”

Não se veja neste modo de qualificar o presidente dos EUA um insulto fácil ou uma hipérbole circunstancial. Trata-se, antes, de caracterizar o modo específico de como exerce o poder: não pela visão, pela competência ou sequer pelo gosto da controvérsia, mas por ter convertido a si próprio – e, eo ipso, ao cargo que ocupa – num objeto de ridicularização contínua. As intervenções mediáticas de Trump aproximam-se mais da lógica da anedota do que da lógica política. São marcadas pelo exagero, pela simplificação extrema, pela contradição e por um apelo constante ao efeito imediato. Não se trata de lapsos ocasionais, que qualquer líder pode cometer, mas de um padrão consistente em que o insólito substitui o argumento e o impacto toma o lugar da coerência. Tradicionalmente, a presidência assenta numa combinação de legitimidade institucional, previsibilidade e capacidade de gerar confiança. Trump erodiu esses pilares. A autoridade que formalmente encarna subsiste, mas encontra-se simbolicamente corroída pela repetição do absurdo. Mantém o poder por força do cargo, mas desprovido de gravitas. A sua presença pública passou a suscitar, quase automaticamente, reações de riso, incredulidade ou constrangimento. Trump não é apenas alguém sobre quem se fazem anedotas; tornou-se, ele próprio, uma anedota. E, tristemente, isso converteu-se numa dimensão estrutural da sua identidade política. Não se trata apenas de impopularidade ou de um estilo excessivamente informal. Há líderes bruscos, provocadores ou excêntricos que não resvalam para o risível por pena. O que distingue Trump é a persistência com que abdica de sustentar um discurso minimamente consistente, transformando o espaço público num palco de episódios sucessivos de descredibilização. O atual presidente dos Estados Unidos deixou de ser uma figura meramente curiosa para se tornar um fator de degradação do debate público e de fragilização da perceção institucional. Ao banalizar o absurdo, reduz o nível de exigência imposto ao poder e normaliza a ideia de que governar pode ser indistinguível de entreter. Para infelicidade da grande nação estadunidense, Trump encontra-se rodeado por um ecossistema que valida, amplifica e protege a sua lógica. A lealdade substitui a competência; o aplauso substitui o contraditório. E a base de apoio, um movimento que na própria sigla já promete grandeza simplificada, alimenta-se de slogans, indignações rápidas e certezas fáceis, num ambiente moldado por estímulos curtos e pensamento comprimido. No plano internacional, as consequências são evidentes: uma figura que não impõe, não estabiliza, não orienta. Putin manipula-o. Xi Jinping despreza-o. A União Europeia oscila entre o embaraço e a condescendência. Outros atores, maiores ou menores, testam-lhe os limites com uma leveza que dificilmente exibiriam perante um interlocutor previsível. No seu narcisismo esgotante, Trump ambiciona o reconhecimento do mundo que roça o autoparódico. Exigiu, por isso, um Nobel da Paz. Alguns sugeriram, com ironia, um IgNobel, mas depressa recuaram: tal distinção ainda pressupõe uma forma de inteligência crítica. Talvez seja, então, necessário imaginar um prémio inteiramente novo, à altura da sua singular capacidade de transformar o exercício do poder numa sucessão de episódios involuntariamente cómicos. Poder-se-ia chamar Prémio Dunning-Kruger Global, atribuído a quem atinge o mais alto grau de incompetência com a mais inabalável das convicções, distinção da qual seria, sem surpresa, vencedor vitalício. Nada menos.

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