“Novo quadro partidário” |
O sistema partidário português podia ser caraterizado como bipartidarismo imperfeito em que dois partidos (PS e PSD) dominaram durante cinquenta anos a vida política nacional, embora tendo à sua direita, ou à sua esquerda, partidos minoritários, os quais foram, por vezes, importantes para ajudar a formar maiorias. Ora, neste modelo de bipartidarismo, funcionava a teoria do eleitor mediano (Romer e Rosenthal,1970), a qual pode ser enunciada, da seguinte forma: dois candidatos, ou partidos, em competição pelo mesmo lugar, tendem a convergir para propostas políticas semelhantes, de modo a conquistar as preferências do eleitor central, já que é neste centro que se situa a maioria dos eleitores. Isto, é claro, se os eleitores forem organizados numa única dimensão (ex. esquerda-direita). Este sistema funcionou durante cinquenta anos, alternando-se os dois partidos no poder, aliados ou não aos seus extremos. De um lado o PS, de cariz social-democrata; do outro lado, o PSD, resultante de um agregado de ideologias conservadoras, liberais, mas também social-democratas, tendo evoluído para um partido catch all, com a redução da base ideológica, diminuição da importância dada à classe social e abertura a diversos grupos de interesses. Todavia, estas últimas eleições alteraram drasticamente este quadro partidário. Existem agora três grandes partidos políticos, um dos quais de extrema-direita, com peso eleitoral muito semelhante, sendo que o PSD venceu as eleições. E, neste contexto, como ser o partido maioritário e ganhar as eleições? Numa primeira fase, o PSD insistiu em ser o centro, distribuindo dinheiro, satisfazendo interesses, usando o superavit herdado do governo PS, enquanto procurava encostar o PS à extrema-esquerda e recusava -se a fazer acordos com o Chega. Mas, não resultou eleitoralmente, embora tenha vencido as eleições, mas sem maioria absoluta. Numa segunda fase, o PSD encosta à direita, enquanto se apropria dos temas do Chega, já que, pela primeira vez as direitas são maioritárias. Procura, assim recuperar o eleitorado da extrema-direita, convertendo-se no partido maioritário, mas adotando uma ideologia cada vez mais direitista. É o pacote laboral, a recomposição do Tribunal Constitucional, a lei da imigração e da nacionalidade, etc. Pode parecer que ganha, descaraterizando-se ainda mais, mas a experiência diz que estas alianças só favorecem a extrema-direita. Quanto ao PS, pode ser tentado a ocupar o centro do espetro partidário, mas pode transformar-se numa ilusão, já que o centro está a esvaziar-se. Pelo que não pode nunca abandonar a ideologia de esquerda que faz parte da sua matriz. Claro que existem estratégias para subverter a teoria do voto mediano. A mais conhecida consiste na microtargeting, em que os candidatos, ou partidos, em vez de uma mensagem única para o centro, usam milhares de mensagens diferentes para grupos específicos. Assim, um partido pode ser moderado para uns, mas radical para outros, destruindo a transparência. E, neste cenário, o eleitor mediano tende a transformar-se num eleitor identitário, caraterizado pela cegueira crítica, radicalismo e populismo. E, nesta hipótese, o Chega pode muito bem digerir o PSD e a direita moderada.
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