Entrar num cemitério provocará a cada um de nós sensações antagónicas. Sentimo-nos impelidos a ir porque aí estão pessoas próximas que nos fazem muita falta, mas há também um sentido de estranheza que nos causa um certo desassossego. E isso também acontece porque esses lugares se organizam num certo caos e, a partir de certas campas, percebemos abandonos que não deixam de incomodar.
Depois de uma semana de chuva intensa, o dia de ontem amanheceu com sol. No cemitério de Monte d’Arcos, em Braga, misturavam-se pessoas a limpar jazigos, com outras a acomodar arranjos florais e a colocar velas. Na fila dos fontanários, as conversas misturavam-se entre queixas de água à míngua (seria difícil multiplicar pontos de água?) e de indisponibilidade pessoal para ali estar. Havia uma certa impaciência que era comum a todos. Num lugar que me permitia uma certa visão de conjunto, ia constatando, mais uma vez, que a desorganização daquele espaço também contribuiria para esse mal-estar.

Nos últimos anos, o cemitério Monte d’Arcos tem mostrado sinais de que não há terrenos suficientes para albergar aqueles que para aí vão. Ampliaram-se secções e, nas existentes, improvisaram-se novas alas. No entanto, faltam arranjos que deem alguma harmonia a esse crescimento forçado. Os caminhos em cimento também não criam uma estética que contribua para criar um ambiente que conforte aqueles que visitam os seus entes queridos. Não será este um caso excecional. Em Portugal, não se cuida dos cemitérios. E não deveria ser assim. Beneficiando de ter grande parte das urnas na parte subterrânea, esses espaços poderiam criar ambientes naturais, de uma beleza única.
Quando comecei a ir ao cemitério com mais regularidade, sentia um certo alvoroço interno que procurava, sem sucesso, apaziguar à medida que caminhava para os jazigos que visitava. Nunca ultrapassei isso. O traçado algo desalinhado, as dimensões incompreensivelmente desiguais e os materiais diversos e muitas vezes sem qualquer gosto estético das campas conferem a esses espaços uma desordem tal que a primeira impressão será sempre de repulsa.

Não gostamos daqueles lugares. Por várias razões. A primeira será sempre porque aí está quem queríamos que continuasse a partilhar a vida connosco. No entanto, o descuido a que são votados os cemitérios também contribui para entrarmos lá de coração apertado. Claro que cada um de nós procurará encontrar, por vários caminhos, a paz possível na tristeza profunda que sempre transporta. Deixamos lá as flores que mais gostamos e vamos renovando uma luz através das velas que vão iluminando a esperança numa certa eternidade.

Uma coisa que sempre me chamou a atenção foi o asseio de cada campa. Fazendo o mesmo trajeto, nestes anos fui reparando que algumas se enchem de sublimes arranjos florais durante todo o ano. Alguns são até muito simples, mas sente-se, através deles, o amor de quem os colocou aí e os vai renovando a cada semana. Outros jazigos permanecem despidos todo ano e pergunto-me muitas vezes porquê. Serão muitas as razões: porque não há família ou, se existe, estará longe; porque se quebraram laços emocionais ou porque eles permanecem de tal modo fortes que poderá faltar coragem para o confronto direto com a morte. Qualquer uma destas razões é pesada.
Até à próxima quarta-feira, dia de finados, muitos de nós encaminhar-se-ão para o cemitério. Fazem-no porque perderam pessoas de quem gostavam (muito). Fazem-no muitas vezes de sorriso doce no rosto e de coração despedaçado. Nesta minha caminhada pelo cemitério, continuo a sentir a estranheza de sempre, mas, nestes dias, sinto-me mais acompanhada numa dor que sei que é comum a muitos daqueles que comigo se cruzam.

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QOSHE - “Cemitérios, esses lugares...” - Felisbela Lopes
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“Cemitérios, esses lugares...”

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31.10.2022

Entrar num cemitério provocará a cada um de nós sensações antagónicas. Sentimo-nos impelidos a ir porque aí estão pessoas próximas que nos fazem muita falta, mas há também um sentido de estranheza que nos causa um certo desassossego. E isso também acontece porque esses lugares se organizam num certo caos e, a partir de certas campas, percebemos abandonos que não deixam de incomodar.
Depois de uma semana de chuva intensa, o dia de ontem amanheceu com sol. No cemitério de Monte d’Arcos, em Braga, misturavam-se pessoas a limpar jazigos, com outras a acomodar arranjos florais e a colocar velas. Na fila dos fontanários, as conversas misturavam-se entre queixas de água à míngua (seria difícil multiplicar pontos de água?) e de indisponibilidade pessoal para ali estar. Havia uma certa impaciência que era comum a todos. Num lugar que me permitia uma certa visão de conjunto, ia constatando, mais uma vez, que a desorganização daquele espaço também contribuiria para esse mal-estar.

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