“Primavera antecipada: quando a...”

Março traz consigo a promessa da primavera. Ainda antes das flores se abrirem por completo, já há sinais de mudança: pequenos rebentos, cores tímidas, movimentos discretos que anunciam o que está por vir. Na escola, acontece algo semelhante — há alunos que florescem antes do tempo, que pensam antes de lhes ser pedido, que criam antes de lhes ser ensinado. Nem sempre sabemos reconhecê-los. A criatividade, tantas vezes evocada como uma competência desejável, continua a ocupar um lugar ambíguo no contexto escolar. É valorizada em discurso, mas frequentemente desvalorizada na prática. A escola continua a privilegiar a resposta certa, o procedimento esperado, a reprodução eficaz. O pensamento divergente — aquele que abre caminhos novos, que questiona o dado adquirido, que arrisca hipóteses — continua a ser, muitas vezes, tolerado, mas não verdadeiramente promovido. A investigação tem vindo a demonstrar, de forma consistente, que o talento não pode ser reduzido à capacidade cognitiva. Joseph Renzulli, ao propor o seu Modelo dos Três Anéis, veio precisamente alargar esta visão, integrando a criatividade e o envolvimento com a tarefa como dimensões essenciais da sobredotação. Não basta saber muito; é necessário saber pensar de forma original e comprometer-se com o que se faz. Nesta mesma linha, Françoys Gagné, com o seu Modelo Diferenciado de Dotação e Talento, sublinha que as capacidades naturais só se transformam em talento quando mediadas por fatores como a motivação, a persistência e os contextos de aprendizagem. E Joy Paul Guilford, já nos anos 50 do século passado, alertava para o facto de os testes de inteligência tradicionais ignorarem precisamente aquilo que distinguia os pensadores mais criativos: a fluência, a flexibilidade e a originalidade do pensamento. Décadas de investigação depois, continuamos a avaliar muito do que é fácil de medir e a ignorar muito do que verdadeiramente importa. Esta perspetiva obriga-nos a repensar práticas. Porque muitos dos alunos que revelam elevados níveis de cria- tividade não correspondem ao perfil tradicional de "bom aluno". São aqueles que questionam, que propõem soluções inesperadas, que fazem associações pouco convencionais, que por vezes parecem dispersos — mas que, na verdade, estão a operar a um nível de pensamento mais complexo. Sabemos bem que ambientes excessivamente estrutu- rados, centrados na resposta única e na reprodução de procedimentos, tendem a reduzir a expressão criativa. Pelo contrário, contextos que promovem a autonomia, a interrogação, a exploração de múltiplas soluções e o erro como parte do processo favorecem o desenvolvimento do pensamento criativo e do envolvimento cognitivo profundo. E, no entanto, continuamos a assistir a práticas que, ainda que bem-intencionadas, acabam por "podar" antes de deixar florescer. Quando dizemos "faz como eu expliquei", "não compliques", "isso não é para agora", estamos, muitas vezes, a limitar não apenas uma resposta, mas um modo de pensar. É importante afirmar com clareza: a criatividade não é um acessório do currículo, é uma dimensão central da aprendizagem. Não é algo reservado às artes ou a momentos pontuais; é uma competência transversal, que atravessa todas as áreas do conhecimento e que se manifesta na forma como se resolvem problemas, se constroem ideias e se estabelecem relações. No caso das crianças e jovens com altas capacidades, esta dimensão assume particular relevância. São frequentemente estes alunos que apresentam níveis elevados de pensamento divergente, curiosidade intensa e necessidade de explorar para além do que é proposto. E quando a escola não responde a estas necessidades, é comum surgirem sinais de desmotivação, desinvestimento e, em alguns casos, sub-rendimento escolar — não por falta de capacidade, mas por falta de desafio e de reconhecimento. O papel do professor, neste contexto, é determinante. Não enquanto transmissor de conteúdos, mas enquanto criador de condições para que o pensamento aconteça. Isto implica aceitar respostas diferentes, valorizar processos e não apenas resultados, promover perguntas abertas, permitir tempo para explorar, e, sobretudo, reconhecer que o erro não é falha, mas parte integrante do processo criativo. Março lembra-nos que há flores que surgem antes do tempo — e que isso não é problema, é potencial. O desafio da escola é saber acolher essa antecipação, em vez de a corrigir. Saber ver na diferença não um desvio, mas uma possibilidade. Talvez seja tempo de passarmos de uma escola que poda para uma escola que deixa crescer. Porque, no fundo, educar é isso mesmo: criar as condições para que cada aluno possa florescer — mesmo quando floresce antes do tempo.

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