“A Obra Maior de Baden-Powell -...”
Na última crónica vimos como o Rali do Palácio da Cristal, foi um êxito retumbante, onde onze mil rapazes desfilaram e aclamaram Baden-Powell, mas logo a seguir, sem qualquer aviso prévio, surgiram “batalhões de raparigas”, fazendo uma autêntica “manifestação” reclamando o direito de, também elas, “serem escuteiras”, como os seus irmãos. Face a esta reação, B.-P. demonstrou uma grande sagacidade, autorizando que as raparigas se pudessem inscrever transitoriamente no “Quartel General dos Exploradores”. Para não correr o risco de adulterar a verdade histórica deste novo desafio colocado ao Fundador recorremos ao texto do seu biógrafo1 «com a ajuda de sua Irmã Inês e depois, em colaboração com sua mulher, publicaria em 1917 o “Livro das Guias” e estabeleceria um movimento feminino paralelo ao dos escutas. «Nesta época as mulheres mal começavam a tomar parte na vida pública e profissional. Mais ainda que seus irmãos, as raparigas tinham necessidade de tomar consciência da sua personalidade, visto que a sua vida, relativamente mais fechada, lhes tinha dado menos ocasiões de a desenvolver. «Era-lhes necessária uma forte personalidade, primeiro para se mostrarem à altura da sua maior responsabilidade na vida social e depois no seu futuro papel de mães, que formariam, por sua vez, o de seus filhos. «O ensino dado às jovens nas escolas fora elevado a um nível superior; aperfeiçoava-se constantemente, mas o problema da formação do carácter não tivera ainda solução. O carácter não pode ser formado por meio de lições coletivas; é preciso que se desenvolva no indivíduo e sobretudo à custa do seu próprio esforço. «No que se referia aos exploradores, tentávamos ajudá-los a desenvolverem harmoniosamente a personalidade por meio de atividades desportivas e aventuras ao ar livre a que se juntava um código moral de cavalaria. Compreendera-se há muito que as raparigas e as jovens preferiam geralmente os livros destinados aos rapazes: os heróis dos dramas do “Far-Weat” agradavam-lhes bem mais do que as fadas heroínas da literatura para pensionato de meninas. «Agora, por sua própria iniciativa, elas pediam para tomar parte, tal como seus irmãos, nesta vida de aventuras. O que hoje nos parece tão natural era, em 1909, uma inovação sensacional. «Vendo-as animadas de tão belo espírito, não foi difícil estabelecer para elas um programa baseado nos princípios dos exploradores, diferindo contudo em pormenor para o adaptar à vida própria da rapariga. «Miss Charlotte Mason, fundadora da Casa das Educadoras, tinha sido de algum modo uma precursora, adotando, como manual de instrução para as suas educandas “Subsídios para a Exploração”. Ela tinha-o achado capaz de servir para a educação das jovens; depois do meu encontro com estas três “Exploradoras” que tão alto afirmavam o seu direito à existência, também eu já não estava sem esperança e propunha-me criar para elas um movimento semelhante ao dos exploradores. Chamámos-lhe “Girl Guides”. Tínhamos escolhido o termo “guias” porque ele sugeria uma ideia de poesia e de aventura, indicando ao mesmo tempo as responsa- bilidades futuras das mulheres que teriam de aconselhar os maridos e educar os filhos nos bons princípios. (...) «Queríamos atingir este fim pela autoeducação, utilizando distrações ao ar livre em companhia de boas camaradas. A direção era assegurada por uma chefe, quer dizer, não uma mestra de escola nem uma “Senhora Mando”, mas antes por uma irmã mais velha. No decurso dos dois ou três primeiros anos foi-nos de todo impossível dar uma organização a este novo corpo, solicitados como estávamos de todos os lados pela continuação do desenvolvimento fenomenal do movimento escutista; mas, graças ao esforço duma comissão de senhoras enérgicas, o novo agrupamento tornou-se corpo e não tardou a ter quartel general, uniforme, manual e estatutos, como toda a associação que se preza. «A questão do uniforme era importante, não só pela atração que não deixaria de ter sobre as raparigas, mas porque permitia apagar todas as diferenças sociais. Um dos nossos princípios é atingir todos com a nossa boa vontade e a nossa tolerância, sem atendermos às diferenças de classe, de nacionalidade ou de crença. «Como uma campainha que floriu sobre um tronco de bétula e nele se apoia, o Guidismo deve o seu êxito apenas a essa obscura necessidade das raparigas imitarem os rapazes, e o seu método só penetrou o mundo porque o Escutismo o tinha conquistado. 1 In Baden-Powell – Cidadão do Mundo, Robert Bastin, Edição do CNE, 1980, pág. 208-211.
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