“Nobel da guerra”
Regressou à Casa Branca com a promessa de acabar com as guerras, tendo depois proclamado o desejo de ser galardoado com o prémio Nobel da Paz. No entanto, sem que nos possamos dizer surpreendidos, Donald Trump foi totalmente incoerente e lançou um ataque militar ao Irão. Hoje encontra-se envolvido num conflito desastroso no Médio Oriente. A intervenção dos EUA, coordenada exclusivamente com Israel, foi uma contradição de tal forma flagrante que até um dos seus fiéis aliados se demitiu como protesto. Joe Kent, diretor do Centro Nacional Contra o Terrorismo, afirmou não poder apoiar uma guerra baseada em premissas falsas e sem objetivos definidos. Após a captura de Nicolás Maduro, que permitiu ganhar ascendente sobre a atual liderança da Venezuela, Trump acreditou que decapitar o regime iraniano provocaria automaticamente a cedência às vontades americanas. Estava bru- talmente errado: a morte do Líder Supremo, Ali Khamenei, não abriu qualquer margem para uma solução alternativa. Trata-se de uma política externa rudimentar, que confunde táticas de máfia com diplomacia de Estado. Atropelou o direito internacional, utilizou a força militar de forma leviana e, perante o insucesso da abordagem inicial, ficou provada a total falta de orientação estratégica. Continua, portanto, o caminho da descredibilização dos EUA como parceiro fiável. Agora que a vitória rápida se transformou num conflito demorado em expansão pelo Médio Oriente, o Presidente Trump - num exercício de total falta de discernimento - clama por apoio. Pediu a colaboração da Europa, do Japão e até da própria China. É o grito de quem ateou um incêndio e agora exige que sejam os vizinhos a extinguir o fogo. As primeiras reações europeias à guerra, começando pelo Governo português, foram exemplos infelizes de submissão. Porém, as lideranças europeias afinaram o seu tom e afastaram uma participação direta neste conflito - o seu contrário seria ultrapassar todos os limites do absurdo, tendo em conta a exclusão da Europa até ao momento em que a situação se descontrolou. Naturalmente, em reação intempestiva, Donald Trump dirigiu fortes críticas aos parceiros da NATO. A sua América está orgulhosamente só e “não precisa da ajuda de ninguém” - ignorando que, até hoje, apenas os Estados Unidos acionaram o Artigo 5.º do tratado para evocar apoio dos aliados europeus. Toda esta situação evidencia, uma vez mais, as fragilidades estruturais da defesa europeia. Enquanto a nossa arquitetura estiver ancorada na capacidade militar dos EUA, a União Europeia estará vulnerável a coerção, chantagem e outras manobras de pressão política. O que, no caso do Presidente Trump, se manifesta tanto em matéria comercial, como regulação digital, além de segurança. Por esse motivo, desenvolver maior autonomia europeia não é uma mera teoria académica, mas sim uma necessidade estratégica. E não basta reforçar as capacidades a nível nacional; a única forma de realmente afirmar os valores e interesses da Europa no Mundo é através da coordenação e cooperação política. Ou seja, de construir uma comunidade europeia de defesa. Nas últimas décadas, a União Europeia interpretou o dividendo da paz como uma “borla”. O preço, afinal, foi a nossa soberania. Ainda vamos a tempo de corrigir o erro.
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