O infinito em nós

Costumávamos apreciar o céu estrelado na fazenda dos meus avós. A estrada salpicada de estrelas, rio leitoso que se perdia na imensidão do infinito, até onde a vista alcançava. Eu me recordo de como ficávamos embevecidos com o surgir da Lua no horizonte, especialmente quando cheia. Parecia que queria dar um abraço e agasalhar a Terra com seu véu de luz. Meus avós partiram para as estrelas, mas o mesmo fascínio encontra meus olhos, sempre que os direciono para cima, a admirar o céu noturno na Chapada dos Veadeiros, cujo misticismo e cujas histórias de discos voadores tornam tudo ainda mais mágico.

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Se você, leitor, ainda não teve a oportunidade de contemplar a imensidão sobre nossas cabeças, a partir de locais mais afastados de grandes centros urbanos, então, sugiro que o faça. Para quem acredita, há até mesmo um quê de espiritual ou de metafísico nessa experiência. 

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Foi com aquele mesmo olhar que, com o celular em mãos, caminhando ao retornar para casa, na noite de sexta-feira, acompanhei o pouso da missão Artemis II e perscrutei o céu com aquele mesmo olhar de criança. 

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Depois de 54 anos, o homem retornou à Lua. Nessas cinco décadas, enviamos robôs para Marte, tiramos fotos com altíssima resolução do Planeta Vermelho, colocamos uma sonda na órbita de Saturno, deslocamos o nosso olhar mais minucioso até os confins do Universo — os supertelescópios espaciais Hubble e James Webb. Cada imagem que chegava do Cosmo era como se víssemos supernovas e conglomerados estelares e voltássemos o olhar para milhões de anos atrás. Muitas das estrelas que enxergamos no céu morreram — apenas a luz chega até nós. Artemis II abriu caminho para uma nova missão tripulada na Lua. Como me disse o ex-astronauta Clayton C. Anderson, a missão histórica da Nasa servirá de trampolim para colocarmos astronautas em Marte. 

Com o avanço científico estupendo, talvez estejamos próximos de detectar vida — ainda que microscópica — lá fora. Acredito que algumas civilizações alienígenas avançadas habitem a vastidão do Universo, em locais até então inalcançáveis para o homem. Não seria arrogância e prepotência extremas acreditar que o dom da vida somente foi concedido ao planeta Terra? Imagina o nosso globo como se fosse uma pequena cidade e, ao seu redor, um deserto completamente inóspito? Faz sentido para você? O que nos torna predestinados em meio à vastidão do desconhecido? Talvez leve séculos ou mesmo milênios para descobrirmos que não estamos sozinhos. Aliás, imagino essa como a grande manchete dos jornais e sites de notícias, ao lado das curas de graves doenças, como a Aids, o câncer, a esclerose múltipla e a esclerose lateral amiotrófica.  

Até que esse dia chegue, fico com as memórias das noites estreladas e das conversas sobre astronomia com o meu avô. Também com a admiração pelo avanço da ciência e da tecnologia. Somos os navegadores dos séculos 15 e 16. Nosso mar é o infinito acima de nossas cabeças. E suas possibilidades. 

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Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG) em 1997. Curioso por natureza, adora buscar histórias. Desde 2005, trabalha no Correio Braziliense, onde entrevistou laureados com o Nobel da Paz, embaixadores e ex-presidentes.


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