Crime superorganizado

Cristovam Buarqueprofessor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

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As epidemias biológicas contagiam pelo contato; as epidemias morais contaminam pelo exemplo. O comportamento dos líderes espalha a corrupção ao ponto de a honestidade, que era um valor ético generalizado, passar a ser mania de poucos excêntricos que ainda a praticam. Em vez de servir à comunidade, os agentes públicos, especialmente mas não apenas os políticos, passaram a priorizar os próprios interesses, usufruir das funções, sem respeito aos interesses nem à opinião pública. As eleições perderam o propósito de escolher quem apresenta as melhores propostas para o país e passaram a eleger quem oferece vantagens pessoais ao eleitor. Tal como nas epidemias biológicas, ao contaminar a maior parte da população, a corrupção passou a ser vista como um simples incômodo: uma “gripe de consciência”.

Há um sentimento geral de que tudo o que é legal pode ser feito, mesmo que não seja decente; e de que o que é ilegal pode ser praticado, desde que não seja descoberto. A diferença em relação aos antigos coronéis é que os atuais usam dinheiro público para beneficiar seus eleitores, agora informados por outdoors ou redes sociais. O setor público brasileiro gasta bilhões com supersalários viabilizados por truques legais........

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