Pipaluk Lynge: “A Groenlândia não venderá sua alma”

A ameaça soou de forma cristalina em 15 de janeiro de 2026, quando Donald Trump afirmou que os Estados Unidos fariam “algo” em relação à Groenlândia, “quer eles gostem ou não”. Dois dias depois, em 17 de janeiro de 2026, a declaração foi reiterada, agora amparada no argumento da “segurança nacional”. Não se tratou de bravata isolada nem de improviso retórico, mas da reapresentação explícita de uma doutrina antiga, perigosa e intelectualmente empobrecida: a ideia de que o poder militar confere direito moral à apropriação preventiva de territórios alheios.

Invocar segurança nacional em um mundo marcado por duas guerras mundiais, dezenas de conflitos armados ativos e uma ordem internacional profundamente fraturada não é apenas controverso — é filosoficamente inconsistente. 

Se esse princípio for naturalizado, o que impedirá qualquer país de se apropriar de territórios vizinhos sob o mesmo pretexto? Onde termina a segurança de um e começa a insegurança de todos? Que previsibilidade restará aos países mais pobres, às regiões periféricas, aos povos que vivem nas bordas geográficas e políticas do sistema internacional, do Ártico canadense ao sul do México? 

Essa tese é funesta porque destrói o próprio alicerce do direito internacional: a noção de limites, soberania e regras comuns.

A resposta mais firme partiu de Pipaluk Lynge, deputada, ex-ministra e presidente do Comitê de Política Externa e de Segurança do Parlamento groenlandês. Ao afirmar que a Groenlândia não venderá sua alma, Lynge não fazia retórica identitária nem literatura política. 

Falava a partir de uma experiência........

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