O pecado capital do poder

Em 1975, Janete Clair entregou ao Brasil uma novela sobre dinheiro, consciência e autoengano. Em Pecado Capital, exibida pela Globo entre 24 de novembro de 1975 e 5 de junho de 1976, assaltantes esquecem no táxi de Carlão uma mala contendo 800 mil cruzeiros. O motorista interpretado por Francisco Cuoco sabe que o dinheiro não lhe pertence. Ainda assim, decide conservá-lo, compra automóveis, monta uma frota e passa a ser chamado de Rei do Méier. A mala não resolve sua vida: oferece-lhe poder suficiente para que ele revele quem escolheu ser.

Aí reside a diferença entre ter e ser. Ter é necessário: significa alimentar a família, morar com dignidade, estudar, viajar, cuidar da saúde e não depender da caridade alheia. A pobreza involuntária não enobrece ninguém; restringe escolhas, produz sofrimento e pode esmagar talentos. O problema começa quando aquilo que se tem deixa de servir ao que se é. Nesse momento, patrimônio, saldo bancário e posição social ocupam o lugar do caráter. O indivíduo já não quer possuir coisas para viver melhor. Precisa exibi-las para convencer os outros — e talvez a si mesmo — de que vale mais.

O ter também pode ampliar o ser. Recursos empregados em educação, cultura, cuidado, ciência ou solidariedade aumentam a autonomia e permitem que capacidades humanas se realizem. Mas a relação se inverte quando a pessoa passa a extrair dos bens sua identidade, seu prestígio e a sensação de superioridade. Quem possui sem se deixar possuir conserva a liberdade; quem precisa acumular para existir torna-se dependente do patrimônio. A conta bancária cresce enquanto a individualidade se reduz ao saldo.

Carlão não se transforma subitamente em outro homem ao encontrar a mala. O dinheiro apenas remove limitações externas que continham suas inclinações. Com recursos para agir, ele passa a fabricar justificativas: sofreu muito, trabalhou demais, foi desprezado, merece uma oportunidade. O erro é convertido em reparação pessoal. O dinheiro roubado compra táxis legais, prestígio comunitário e identidade empresarial. A ilegalidade inicial recebe documentos, aparência de sucesso e aprovação social. Janete Clair percebeu algo que permanece atual: a riqueza pode esconder a origem da fortuna, mas não consegue alterá-la.

A quantia encontrada era imensa. Em maio de 1975, o salário mínimo valia Cr$ 532,80. Os Cr$ 800 mil representavam aproximadamente 1.502 salários mínimos. Pelo mesmo critério, considerando o mínimo de R$ 1.621 vigente em 2026, corresponderiam hoje a cerca de R$ 2,43 milhões. Não é simples conversão nominal — o Brasil atravessou seis mudanças de moeda no período —, mas uma medida de poder econômico. Carlão não encontrou recursos para pagar algumas contas. Encontrou dinheiro capaz de modificar seu lugar na sociedade.

É exatamente isso que Paulinho da Viola compreendeu ao compor, em cerca de 24 horas, a canção encomendada para a abertura. “Dinheiro na mão é vendaval” não condena a riqueza em si. A composição apresenta o dinheiro como solução, movimento e solidão. A mesma quantia que liberta uma pessoa de necessidades concretas pode aprisioná-la à obrigação de acumular, aparentar e dominar. Ao situar o vendaval “na vida de um sonhador”, Paulinho identifica o ponto vulnerável: o desejo sem medida.

Carlão poderia devolver a mala no primeiro dia. Não o faz porque começa a imaginar o homem que será com aquele dinheiro. Quando finalmente decide entregá-la à polícia, já está cercado pelas consequências de suas escolhas e é morto a tiros. Seu erro não foi desejar uma vida melhor. Foi aceitar que um crime pudesse constituir o alicerce dessa vida. O dinheiro lhe proporcionou bens, mas cobrou o controle de sua consciência.

Aristóteles distinguia a riqueza voltada às necessidades da acumulação transformada em finalidade absoluta. A primeira sustenta a casa e a comunidade; a segunda desconhece limite, porque o dinheiro passa a gerar o desejo de mais dinheiro. Epicuro chegou ao mesmo problema por outro caminho: rico não é quem possui infinitamente, mas quem consegue estabelecer uma medida para seus desejos. Aquele que jamais pronuncia a palavra “basta” continuará carente mesmo cercado de milhões.

No século XIX, Karl Marx analisou a capacidade do dinheiro de converter qualidades, relações e prestígio em........

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