Nobel não se entrega, se honra

Desde 1901, quando o testamento de Alfred Nobel instituiu os prêmios que levariam seu nome, a distinção consolidou-se como um pacto moral entre mérito comprovado e responsabilidade histórica. O Nobel nunca foi um objeto cerimonial desprovido de densidade ética. Ele carrega um compromisso público com a humanidade, com a ciência, com a cultura, com a paz. Por isso, o gesto de María Corina Machado ao entregar a medalha do Nobel da Paz a Donald Trump não pode ser tratado como um deslize protocolar. Trata-se de uma fratura simbólica grave, que atinge o próprio sentido da honraria.

O episódio ocorreu na quinta-feira, 15 de janeiro de 2026, durante um almoço privado na Casa Branca, marcado para às 12h30, horário de Washington. Não houve solenidade, nem declaração conjunta, nem anúncio político relevante. Trump não a recebeu à porta, não sinalizou apoio explícito a uma transição democrática na Venezuela e, após o encontro, limitou-se a agradecer a medalha em uma postagem lacônica nas redes sociais. O silêncio institucional foi ensurdecedor.

O contexto amplia o constrangimento. Àquela altura, a política externa americana reiterava interesses claros em petróleo e investimentos, enquanto interlocuções paralelas avançavam com figuras ligadas ao aparato estatal venezuelano. A democracia, outrora evocada como causa central,........

© Brasil 247