Brasil amplia autonomia ao acessar capital chinês

Há notícias que faço questão de ler duas ou três vezes antes de escrever. Aprendi, depois de décadas acompanhando economia e relações internacionais, que algumas decisões aparentemente técnicas acabam revelando mudanças muito mais profundas do que deixam transparecer na primeira leitura. Foi exatamente essa impressão que tive ao conhecer a intenção do governo brasileiro de emitir, pela primeira vez, títulos soberanos em yuan no mercado doméstico chinês. Quem enxergar apenas uma operação financeira estará olhando para a árvore e ignorando a floresta.

Durante muito tempo, acostumei-me a ver o Brasil recorrer quase sempre aos mesmos caminhos quando precisava dialogar com o mercado internacional de capitais. Nova York ocupava posição central. Londres aparecia logo depois. Em alguns momentos, Frankfurt ampliava esse circuito. Era como se o mapa financeiro mundial tivesse poucos endereços realmente relevantes. A realidade de hoje é outra. A economia global tornou-se mais distribuída, a Ásia consolidou-se como centro de produção, investimento e inovação, e a China deixou de ser apenas a grande fábrica do planeta para transformar-se também em uma das maiores fontes de crédito e liquidez internacionais. Ignorar essa transformação seria interpretar o presente com categorias do passado.

É por isso que considero tão importante a decisão brasileira. O Tesouro Nacional prepara uma emissão de até 5 bilhões de yuans, cerca de US$ 735 milhões, por meio dos chamados Panda Bonds, títulos colocados diretamente no mercado financeiro chinês. Em termos fiscais, a operação pouco altera o perfil da dívida pública brasileira, medida em trilhões de reais. Seu alcance, porém, vai muito além do valor captado. Pela primeira vez, o Estado brasileiro convida investidores chineses a participarem........

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