A civilização que escolheu regressar à caverna

Nenhuma civilização precisa incendiar bibliotecas para renunciar ao conhecimento. Basta atacar quem apresenta provas, ridicularizar quem formula perguntas e aplaudir quem mente com convicção. Escolas, arquivos e laboratórios continuam funcionando; o que se deteriora é a disposição de reconhecer aquilo que demonstram. A decadência torna-se grave quando a sociedade conserva seus instrumentos de esclarecimento, mas perde a vontade de utilizá-los.

Platão (c. 427–347 a.C.) descreveu homens acorrentados numa caverna, confundindo as sombras da parede com a própria realidade. Um prisioneiro se liberta, alcança o exterior e descobre a luz. Nossa época parece decidida a inverter essa alegoria: pessoas que conheceram a claridade da ciência, da história e da liberdade regressam voluntariamente a cavernas que parecem não ter fundo. Levam nas mãos telas iluminadas e nelas encontram razões para continuar descendo.

Chamo esse fenômeno de inversão moral coletiva. O insulto conquista reputação de sinceridade, a crueldade é confundida com firmeza e a fraude passa a ser defendida como sinal de lealdade. O perigo está menos na existência desses vícios, conhecidos desde a Antiguidade, do que na admiração que começam a despertar. Uma comunidade entra em declínio quando transforma seus defeitos em qualidades públicas.

Edward Gibbon (1737–1794), ao estudar o declínio e a queda do Império Romano, investigou como uma potência aparentemente duradoura poderia sofrer uma prolongada desagregação. Sua interpretação continua sujeita a debates, mas a pergunta que deixou permanece incômoda: o que se deteriora dentro de uma civilização enquanto sua grandeza exterior ainda impressiona? Hoje acumulamos recursos técnicos extraordinários e, ao mesmo tempo, convivemos com formas rudimentares de intolerância.

Por que discursos extremistas exercem tamanho fascínio? Porque oferecem três recompensas imediatas: explicações simples para problemas difíceis, um inimigo a quem atribuir frustrações e um grupo no qual o indivíduo se sente importante. A pessoa que enfrenta incertezas recebe um culpado, uma missão e uma identidade. Deixa de precisar compreender o mundo; basta-lhe escolher contra quem dirigir sua cólera.

O humanismo começa por uma exigência impopular: reconhecer direitos também naqueles de quem........

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