Soledad Barrett como num cântico guarani
Então eu a vejo como se na porta aguardasse o toque da transformação, o carinho, o bico do pássaro para absorvê-la e tragá-la entre as suas pétalas. Ela estava ao meu lado, em pose ioga, mas a recordo – num transporte cuja razão ignoro –, mas eu a lembro em pé, de mãos contra a parede, à espera do beijo. Digo em pé, de mãos contra a parede, e essa recordação me dói, por saber dela, meses depois, na mesma posição. Por isso minha lembrança evita a dor e voa para aquele instante da bela paraguaia à distância de meio braço de mim. Os índios sabem por quê. Há um cântico de criança guarani que diz: “Têtã ovy rauy’i / Eikere xevy, eikere devy”, ou “Filha do paraíso azul / Diz, entra para mim”.
Ñande Reko Arandu - (2000) Memória Viva Guarani [Full Album]
Assim a senti e a vi, embora nada soubesse, naquela noite, que ela fosse paraguaia. Nem muito menos que ela cantasse, como soube depois, muito depois, cantos de acalanto guarani. Que coisa estranha é o homem, a pessoa; quanta estranheza reside em nós mesmos. Era como se houvesse uma sirene no ar, sinal de ambulância, de carro de polícia, de anúncio de coisas que virão, mas que, não ouvida por todos, apenas se ouvisse em ouvidos de cachorro. Por isso a senti numa trepidação inaudível.
Ocorrem-nos sentimentos muitas vezes sem explicação, sem uma causa clara, se podemos alimentar a esperança de que todas as coisas tenham uma causa. As pessoas do povo têm uma frase que expressa melhor um fato sem explicação: “Isso tem lógica?”. Se tiver, não é mecânica, nem está no reino do cálculo das........
