O capitalismo é um anticoncepcional do mundo
Parte da imprensa econômica internacional insiste em explicar a queda das taxas de natalidade por meio de leituras simplificadas e, muitas vezes, excessivamente tecnicistas dos fenômenos sociais. Recentemente, John Burn-Murdoch, colunista do Financial Times, colocou smartphones, internet móvel e hiperconectividade no centro da análise demográfica contemporânea. O argumento ganhou repercussão porque é visual, moderno e aparentemente intuitivo. Mas talvez ele desvie o olhar exatamente do que mais importa.
A redução da natalidade não pode ser explicada apenas por celulares, redes sociais ou 4G. O problema é mais profundo.
Estamos falando de exaustão social, insegurança econômica e de um modelo que produziu uma geração inteira incapaz de imaginar estabilidade. A crise demográfica não nasce da internet. Ela nasce da desesperança acumulada ao longo de décadas de concentração extrema de renda, precarização do trabalho, enfraquecimento das políticas de cuidado e de uma sensação persistente de que o futuro foi sequestrado antes mesmo de começar.
Ter filhos, hoje, deixou de ser apenas uma decisão afetiva ou familiar. Para milhões de pessoas, tornou-se uma equação de sobrevivência.
Os números ajudam a dimensionar esse cenário. Segundo o relatório World Fertility 2024, da Divisão de População da ONU, a taxa global de fecundidade caiu de cerca de 5 filhos por mulher, em 1950, para 2,2 em 2024, com projeção de chegar a 1,8 até 2100. Em mais da metade dos países e regiões do mundo, representando dois terços da população global, a fecundidade já está abaixo dos 2,1 filhos por mulher, nível considerado necessário para reposição populacional. Em vários países, como Coreia do Sul, China, Cingapura e Ucrânia, esse índice caiu para níveis historicamente baixos.
Mesmo com a queda consistente das taxas de fecundidade, o mundo segue........
