Notas sobre estilo, docência e escrita com IA
Há algo de reconhecível - quase denunciador - na escrita produzida por inteligências artificiais. Para quem pensa linguagem não apenas como meio, mas como forma de produção de mundo, certos padrões sintáticos se repetem com frequência suficiente para se tornarem indícios de método. Um dos mais recorrentes é a estrutura "não se trata de X, mas de Y". À primeira vista, ela soa elegante, pedagógica, esclarecedora. No entanto, quando aparece reiteradamente em revisões textuais automatizadas, revela uma gramática própria da escrita de IA.
Falo aqui também a partir de um lugar situado, sou professora e uso inteligência artificial como ferramenta de apoio ao trabalho acadêmico. Em processos de revisão textual feitos por IAs - sobretudo quando se pede "clareza", "organização" ou "melhoria do argumento" - essa estrutura emerge quase automaticamente. Ela para além de ser um vício pessoal do autor humano, tornou-se um efeito do modo como os modelos foram treinados a organizar o pensamento escrito.
Do ponto de vista linguístico, trata-se de uma construção de contraste corretivo. A frase nega um primeiro enquadramento para, em seguida, propor outro, supostamente mais preciso. É um recurso altamente eficiente do ponto de vista comunicativo. Tal construção reduz ambiguidade, cria sensação de progresso argumentativo e produz um efeito de autoridade tranquila. A IA "ensina" enquanto escreve. Esse tom professoral não é casual uma vez que ele reflete uma forte presença nos dados de treinamento, de textos acadêmicos, ensaios explicativos e jornalismo interpretativo.
O problema - especialmente para quem escreve desde campos críticos, feministas,........
