"A cisheteronormatividade cafona e o medo de quem sempre se acreditou dono do poder"
Algumas frases que funcionam como síntese de uma época foram protagonizadas pelos expulsos do "paraíso", já dizia João Silvério Trevisan em Devassos no Paraíso. Durante a 30ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, a deputada federal Erika Hilton afirmou algo que ajuda a compreender uma das maiores tensões da política brasileira contemporânea. Segundo ela, quando a população LGBT chega aos espaços de poder, não chega para brincar. A ironia ao vermos LGBTQIAPN , negros, PcDs e outras dissidências segura marca o vazio entre aqueles que se veem melhores que seus pares.
A afirmação parece simples, mas toca numa ferida profunda da sociedade brasileira. Durante séculos, determinados grupos ocuparam o Estado, a política, os meios de comunicação, as universidades e os espaços de decisão como se fossem extensões naturais de seus próprios corpos. Homens brancos, cisgêneros, heterossexuais e herdeiros das estruturas coloniais aprenderam a confundir privilégio com mérito e presença histórica com direito divino à permanência. Nem Bacurau, filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, conseguiu tocar tais corações.
Talvez por isso a chegada de novos sujeitos à cena pública produza tanto desconforto. É a máxima de Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, em plena ação. A filha da empregada não pode ser doutora,........
