O mapa eleitoral de 2026

As eleições presidenciais brasileiras das últimas duas décadas revelam uma transformação profunda na geografia do voto. Mais do que uma simples alternância entre candidatos, a série histórica dos segundos turnos entre 2002 e 2022 mostra a passagem de um período de clara hegemonia eleitoral do PT para uma fase de forte crescimento da oposição, seguida por uma recomposição parcial do eleitorado petista em 2022. A análise utiliza os percentuais de votos válidos no segundo turno das eleições presidenciais, conforme os resultados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), organizados por grandes regiões eleitorais.

Para efeito analítico, denomina-se aqui PT o campo eleitoral liderado pelo Partido dos Trabalhadores e, no outro polo, Oposição, entendida como o ciclo de polarização que inicialmente teve o PSDB como principal força adversária e, posteriormente, passou a ser liderado pelo bolsonarismo. Portanto, “Oposição” não corresponde a uma única força partidária ao longo de todo o período, mas ao campo eleitoral que se contrapôs ao PT em cada etapa da série. A partir dessa base, é possível reconstruir a trajetória eleitoral de 2002 a 2022 e projetar cenários para 2026. Trata-se de uma projeção derivada do comportamento histórico e territorial dos votos, e não de uma previsão do resultado.

Três ciclos e uma nova geografia eleitoral

Quando os resultados regionais são ponderados pelo peso dos respectivos eleitorados, a trajetória nacional apresenta três momentos bastante distintos. Em 2002, o PT obtinha aproximadamente 61,1% dos votos válidos no segundo turno, contra 38,9% da oposição. Em 2006, ampliava sua vantagem para cerca de 62,3%. Em 2010, porém, a margem começava a diminuir, chegando a aproximadamente 56,4%. Em 2014, a vantagem caía para apenas quatro pontos percentuais, com cerca de 52,0% contra 48,0%.

Em 2018 ocorre a ruptura: o campo oposicionista alcança aproximadamente 54,0% dos votos válidos, enquanto o PT fica com 46,0%. Quatro anos depois, em 2022, ocorre uma recomposição importante: o PT volta a ultrapassar a marca dos 50%, chegando a aproximadamente 50,9%, contra 49,1% da oposição. O resultado oficial do TSE foi de 60.345.999 votos para Lula e 58.206.354 para Jair Bolsonaro, entre 118.552.353 votos válidos. A sequência pode, portanto, ser resumida em três grandes ciclos: 2002–2006, de hegemonia petista; 2010–2018, de erosão e ruptura; e 2022, de recuperação parcial.

Essa última observação é fundamental. 2022 não representou simplesmente o retorno ao padrão eleitoral petista das primeiras eleições do século. Representou a recuperação de parte significativa do território eleitoral perdido. O PT voltou a vencer a eleição nacional, mas continuou muito distante de seus níveis de votação de 2002 e 2006 em várias regiões. O resultado foi, portanto, menos uma restauração do antigo mapa eleitoral do que a formação de um novo equilíbrio, marcado por uma divisão territorial muito mais acentuada.

São Paulo talvez seja o melhor exemplo desse movimento. A votação petista passou de 55,4% em 2002 para 52,3% em 2006, 46,0% em 2010, 35,7% em 2014 e apenas 30,0% em 2018. Em 2022, entretanto, ocorreu uma recuperação extraordinária, para 44,8%. Entre 2002 e 2018, o PT perdeu 25,4 pontos percentuais no estado; entre 2018 e 2022, recuperou 14,8 pontos. São Paulo passou, assim, de um território claramente favorável ao PT para um dos principais polos oposicionistas e, posteriormente, para uma situação novamente competitiva. Por seu peso eleitoral, qualquer nova alteração nesse estado pode produzir impacto desproporcional sobre o resultado nacional.

Minas Gerais apresenta trajetória distinta. O PT obteve 66,5% em 2002, 65,2% em 2006, 58,5% em 2010, 52,4% em 2014, 58,2% em 2018 e 50,2% em 2022. Ao contrário de São Paulo, Minas não se transformou em território claramente oposicionista. Mesmo em 2018, quando ocorreu a maior derrota nacional do PT, o partido alcançou 58,2% dos votos mineiros. Em 2022, porém, essa vantagem praticamente desapareceu. Minas tornou-se, assim, um estado-pêndulo, relevante não apenas pelo tamanho do eleitorado, mas também por combinar características encontradas em diferentes regiões do país.

O bloco formado por Rio de Janeiro e Espírito Santo apresenta talvez a transformação mais profunda. O PT passou de 75,7% em 2002 para 68,9% em 2006, 58,4% em 2010, 53,2% em 2014, apenas 33,0% em 2018 e 43,2% em 2022. Entre 2002 e 2018, a perda chegou a 42,7 pontos percentuais. A recuperação de 10,2 pontos entre 2018 e 2022 foi significativa, mas insuficiente para recolocar o bloco próximo de seu padrão histórico. Trata-se, portanto, de uma região onde existe espaço para recuperação, mas também onde se consolidou uma forte estrutura eleitoral favorável à oposição.

O Nordeste conta uma história completamente diferente. A votação petista foi de 61,5% em 2002, 77,1% em 2006, 70,6% em 2010, 71,7% em 2014, 69,7% em 2018 e 69,3% em 2022. Não há aqui uma trajetória de erosão semelhante à observada no Centro-Sul. Depois de 2006, o PT estabeleceu uma vantagem extraordinariamente estável. Em 2022, Lula obteve aproximadamente 69,3%........

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