A política externa brasileira e os resmungos do jornalão |
Na Colônia, seria impensável qualquer norte de política externa, e este quadro de inapetência ideológica e impotência material se preserva no Império, quando o novo Estado, formalmente soberano, se depara com a preeminência britânica, capitis diminutiocom que conviverá o país até a República que se inaugurará já sob os auspícios econômicos, militares, políticos, estratégicos e ideológicos dos EUA (a nova preeminência) que se afirmavam, então, como potência hemisférica e de quem o Brasil procurará aproximar-se, elegendo-o como parceiro econômico-político preferencial.
São os anos da “Doutrina Monroe”, da “América para os americanos” (uma América supostamente ameaçada pelo colonialismo europeu decadente), os tempos da ideologia do big stick, que, de uma forma ou de outra, com as nuanças impostas pelo processo histórico, volta à cena e chega até nós sob o nome fantasia de “trumpismo”.
Joaquim Nabuco, embaixador em Washington (1905–1910), é o primeiro formulador do americanismo brasileiro, doutrina que terá no Barão do Rio Branco, nosso mais aclamado chanceler (1902-1912), seu grande e bem-sucedido operador. Paranhos consolida a autonomia jurídica e diplomática e a associa com o alinhamento político-estratégico aos EUA; afirma-se tanto como arquiteto quanto como operador da política externa brasileira que, para além dele, dominará a Primeira República, com ênfase na consolidação de nossas fronteiras.
O americanismo deixa de ser uma teoria. Faz-se doutrina e fato. E chega aos dias de hoje.
A formulação original de Nabuco – que servirá de base ao americanismo, longe de revelar uma opção ideológica, deve ser vista, mais do que tudo, como uma concessão ao pragmatismo político que necessariamente rege as decisões e as ações do estadista. Pela voz de seus biógrafos, o autor de Minha formação simplesmente estaria, com sua inflexão, cedendo ao peso da realidade objetiva: o declínio europeu vis-à-vis a emergência dos EUA como potência que perseguia a hegemonia regional: seu crescente peso no comércio de café e seu papel político-militar no hemisfério.
Para o grande tribuno da monarquia, se não podíamos mudar os fatos, nem enfrentar a grande potência emergente, a única alternativa considerável seria nos conciliarmos com ela: “Não podemos ficar fora da órbita do novo Império; é melhor estar no quintal do que na rua”.
E neste quintal permanecemos, uns forcejando dele sair, outros por nele permanecer. É este último o caso da quatrocentona família Mesquita, dona do Estadão, ainda com os pés e os corações, as mentes e as contas bancárias dependentes do Brasil arcaico, o Brasil da plantation, do monopólio da terra destinada a fornecer os produtos primários cobrados pela metrópole.
Os primeiros ensaios de autonomia, negociada, ou mesmo de projeto nacional, só emergem a partir de 1930 e já sob a égide do getulismo, pari passu com a preeminência – econômica, militar, política e ideológica........