A Pax Americana: o império sem máscara |
Há escassa novidade por trás dos fatos: raramente o processo histórico se manifesta de forma tão coerente, clara e reveladora como nos últimos eventos que se abateram, se abatem e por muito tempo ainda se abaterão sobre a Venezuela e a América do Sul (passando pelo Brasil, ninguém se iluda), prolongando a tragédia do país vizinho, levado à miséria por ser naturalmente rico.
País soberano — ao menos no formalismo arcaico do direito internacional, sem forças de efetividade, portanto inútil, como é hoje a ONU, reduzida a mero fórum de debates sem consequência —, a República Bolivariana da Venezuela caminha de volta ao quadro colonial dos maus tempos espanhóis. Paga a pena de abrigar o maior estoque de reservas de petróleo bruto do mundo, nada menos que 303 bilhões de barris (cerca de 1/5 das reservas mundiais), superando Arábia Saudita e Irã. E superando, de longe, os EUA (detentores de algo entre 45 e 55 bilhões de barris), o que começa a explicar muita coisa.
Seu destino imediato, anunciado pelos invasores, porém, é o de um protetorado a caminho da recolonização. Mais precisamente, um novo Porto Rico: território “assumido”, mas não incorporado ao mapa dos EUA; carente de soberania de qualquer ordem, inclusive autogovernativa, algo como uma “colônia moderna” — vá lá o anacronismo. Assemelha-se a Guam, Samoa Americana ou Ilhas Virgens. Ou à Guiana Francesa.
Os atuais dirigentes da Venezuela, consentidos, à frente a nova presidente, Delcy Rodríguez (anunciada como interina), apenas permanecerão em suas funções enquanto Caracas cumprir as exigências apresentadas pela Casa Branca. Sabe-se que delas constam cessar o apoio a Cuba, expulsar de seu território os iranianos e outros atores indesejáveis aos EUA, fechar o abastecimento de petróleo para adversários de Washington e abrir o mercado de petróleo às empresas estadunidenses. Tudo já em marcha batida.
Com efeito, lê-se na primeira página de O Globo do último 08/01: “EUA tomam controle do petróleo e obrigam a Venezuela a importar produtos americanos. Governo Trump anuncia que vai gerir recursos obtidos pela venda do óleo e divulga plano que culmina com transição de poder no país”.
Ao largo, o bloqueio aéreo-naval, já de meses, a pirataria dos marines e as sabotagens da CIA e dos inumeráveis “serviços de inteligência”, refazendo o papel de rapina dos galeões ingleses, onde a história norte-americana toma o fio. Nada, porém, que não seja velha crônica contada e sabida. Há uma novidade a registar, embora sua fonte remonte a Theodore Roosevelt: a absoluta falta de disfarce ou escrúpulos da fala. Nesta gestão republicana o discurso rompe com a dubiedade e mesmo com a hipocrisia que sempre marcou os governos do Partido Democrata (vide o histórico de Obama), e também se fez presente nas administrações republicanas. Com Trump, a preservação do império torna-se o único objetivo a ser perseguido, e o país entra em rota de colisão com tudo que possa ser identificado como progresso: é a vigência do que Marina Basso Lacerda denomina “paleoconservadorismo”. Talvez, ainda, uma alteração de postura: a quase sobriedade de Biden é travestida no delírio narcísico de Trump. No plano do simbólico cabe o registro de uma troca de nomes: o Departamento de Defesa foi rebatizado para Departamento de Guerra, aproximando a semântica da política real do Império.
Mas, ao fim e ao cabo, nada de substancial.
Essa nova........