Afinidades seletivas |
1.
Em Considerações sobre o marxismo ocidental (1976) Perry Anderson destacou algumas coordenadas gerais desse movimento, apreendido como uma tradição intelectual. Condenou o abandono do exame preferencial das estruturas econômicas e políticas, em particular do Estado burguês, e da estratégia necessária para derrubá-lo. Os marxistas continentais, na linhagem aberta por Antonio Gramsci e György Lukács, teriam promovido o retorno da cultura burguesa, deslocando a teoria para temas culturais, filosóficos e até mesmo estéticos.
Essa mesma crítica, no entanto, poderia ser dirigida hoje ao autor de Afinidades seletivas, uma coletânea que se debruça, entre outras, sobre a obra de John Rawls, Isaiah Berlin, Mangabeira Unger, Marshall Berman e Norberto Bobbio. Teria Perry Anderson abjurado suas convicções anteriores e aderido ao programa do marxismo ocidental?
Convém antes fazer um esclarecimento. Afinidades seletivas consiste em uma tradução ampliada de A zone of engagement. A primeira versão dessa obra em português Zona de compromisso (Unesp, 1996) reproduzia, estranhamente, apenas quatro artigos do original. Afinidades seletivas traz os ensaios restantes, acrescidos de outros textos de mesma estirpe, publicados na New Left Review“.
A divergência de Perry Anderson em relação ao marxismo ocidental assentava-se sobretudo na definição acerca do projeto do trabalho intelectual mais pertinente naquela quadra histórica. Tratava-se de um dos pontos da discussão sobre os rumos da “Nova Esquerda” anglo-saxônica, encorpada à época pelos acontecimentos de Maio de 1968 e pelas manifestações contra a Guerra do Vietnã.
A partir dos anos 1970, grande parte desse programa foi executada por Perry Anderson e seus colegas de geração. A questão do Estado no Ocidente – abordada primeiramente por Barrington Moore Jr. (As Origens Sociais da Ditadura e da Democracia, Martins Fontes) e em seguida por Perry Anderson (Linhagens do Estado absolutista, Unesp) – foi retomada nos anos 1990 por Charles Tilly (Coerção, capital e Estados europeus, Edusp).
O próprio Perry Anderson examinou a transição do declínio e queda do Império Romano para a sociedade medieval, em Passagens da Antiguidade ao Feudalismo (Unesp), ao mesmo tempo em que seu colega na New Left Review, Robert Brenner, debruçava-se sobre a passagem do feudalismo para o capitalismo, gerando uma polêmica reunida depois em The Brenner Debate.
2.
“As Antinomias de Gramsci”, o ensaio mais antigo (1976) e extenso de Afinidades seletivas, cumpre à risca o programa que Perry Anderson contrapôs ao marxismo ocidental. As noções de hegemonia, Estado e sociedade civil são submetidas a uma exegese rigorosa, que procura deslindar as relações entre esses conceitos, levando em conta as condições em que o texto foi escrito (sob a censura fascista).
O fulcro dessa constelação são as diferenças entre a forma adquirida pelo Estado nos países centrais e na periferia (na linguagem da época, entre Ocidente e Oriente), da qual decorrem estratégias distintas para a conquista do poder.
Antonio Gramsci, no entanto, teria oscilado sobre o modo de resolver esse problema, o que se torna patente nas três maneiras distintas com que concebe a relação entre hegemonia,........