Tariflávio: a arquitetura dos ataques à soberania brasileira |
A cronologia é pública. As reuniões são documentadas. As declarações foram gravadas. O que emerge desse mosaico não é uma coleção de episódios isolados, mas uma engrenagem política surpreendentemente coerente: primeiro internacionaliza-se o conflito doméstico, depois mobiliza-se uma potência estrangeira e, por fim, apresenta-se o ataque ao próprio país como prova de amor à pátria. Uma história tão improvável que, se não estivesse registrada em fotos, vídeos, entrevistas e documentos oficiais, pareceria uma sátira política. Quando os fatos começam a conversar Em julho de 2025, Donald Trump anunciou tarifas de 50% contra produtos brasileiros. Pouco depois vieram as discussões sobre sanções contra autoridades nacionais, pressões diplomáticas, investigações comerciais envolvendo setores estratégicos da economia brasileira e críticas crescentes a instrumentos regulatórios do país. No mesmo período, integrantes da família Bolsonaro mantinham reuniões em Washington, participavam de eventos do universo trumpista, concediam entrevistas para veículos internacionais e defendiam publicamente ações externas contra instituições brasileiras. Observados isoladamente, cada episódio possui sua própria explicação. Mas existe um momento em que a cronologia deixa de ser apenas uma sucessão de acontecimentos e passa a revelar uma sequência. A sequência é simples. Primeiro veio a construção de uma rede política internacional. Depois veio a internacionalização da crise política brasileira. Em seguida, vieram as articulações em Washington. Por fim, surgiram tarifas, sanções, investigações comerciais, pressões sobre o PIX e ataques a instrumentos estratégicos do Estado brasileiro. Os fatos são públicos. A questão é o que acontece quando eles começam a conversar entre si. A construção da ponte (2018–2024) A história não começa com tarifas. Ela começa em 2018. Em agosto de 2018, Eduardo Bolsonaro participa do aniversário de Steve Bannon em Nova York e passa a apresentar o ex-estrategista de Donald Trump como uma de suas principais referências políticas internacionais. Pouco depois, lideranças do bolsonarismo passam a frequentar regularmente a CPAC, principal encontro do conservadorismo americano, aproximando-se de parlamentares republicanos, empresários e figuras centrais do trumpismo. Nos anos seguintes, as viagens aos Estados Unidos tornam-se frequentes. Eduardo Bolsonaro participa de eventos da CPAC, reúne-se com lideranças do trumpismo e mantém contato permanente com figuras como Steve Bannon. Fotografias ao lado de Donald Trump, encontros em Mar-a-Lago e participações em fóruns conservadores passam a ser divulgados como demonstração de proximidade política e alinhamento ideológico. Em março de 2019, Jair Bolsonaro visita Donald Trump na Casa Branca. O encontro simboliza algo maior que uma agenda diplomática convencional. Pela primeira vez desde a redemocratização, um governo brasileiro assume como projeto político uma aproximação explícita, pública e sistemática com um campo específico da política interna dos Estados Unidos. A relação continuaria nos anos seguintes. Steve Bannon. CPAC. Mar-a-Lago. Trump. Eduardo Bolsonaro. Os mesmos nomes reaparecem repetidamente na cronologia. Esse detalhe é........