Declaração de guerra contra o Brasil e a farsa do narcoterrorismo

Um alerta estratégico: documentos oficiais, declarações de autoridades americanas e movimentos geopolíticos recentes revelam a construção de um novo cerco ao Brasil. Este artigo expõe as engrenagens dessa ofensiva e aponta caminhos para que o país defenda sua democracia, seus recursos e seu futuro.

O DIA EM QUE WASHINGTON DECLAROU GUERRA AO BRASIL

Guerras contemporâneas raramente começam com tanques atravessando fronteiras. Elas começam com documentos, categorias jurídicas, alianças militares, reclassificações semânticas e operações de linguagem. No caso do Brasil, o ponto de inflexão já está dado. Ele aparece quando Washington deixa de tratar a América Latina como espaço diplomático e volta a defini-la, em documento oficial, como zona de influência estratégica, de contenção de rivais e de controle de ativos críticos. A National Security Strategy dos Estados Unidos, publicada em novembro de 2025, afirma com todas as letras que o hemisfério deve cooperar com Washington contra “narco-terrorists”, permanecer livre de “hostile foreign incursion or ownership of key assets”, sustentar cadeias críticas de suprimento e garantir acesso americano a posições estratégicas. E conclui com a frase que muda tudo: os Estados Unidos irão “assert and enforce a ‘Trump Corollary’ to the Monroe Doctrine”. Não se trata de retórica lateral nem de interpretação ideológica. Trata-se de formulação oficial de Estado.

Quando essa formulação é lida em conjunto com os acontecimentos de março de 2026, o sentido estratégico fica ainda mais nítido. Em 5 de março, no quartel-general do U.S. Southern Command, Stephen Miller declarou a líderes militares latino-americanos que cartéis “can only be defeated with military power” e que deveriam ser tratados “just as brutally” quanto Al Qaeda e Estado Islâmico. Na mesma conferência, Pete Hegseth defendeu maior cooperação operacional e associou o novo momento hemisférico à retomada da Doutrina Monroe, em tom de celebração. Reuters registrou ainda que Brasil, México e Colômbia não enviaram delegações, sinal claro de desconforto com a nova escalada. O que estava em curso ali não era apenas uma conferência sobre crime organizado. Era a apresentação pública de uma nova gramática de poder para o continente.

Dois dias depois, a Casa Branca transformou essa gramática em diretriz explícita. Na proclamação presidencial de 7 de março de 2026, Trump afirmou que seu governo já havia designado cartéis e gangues transnacionais como organizações terroristas estrangeiras, celebrou a criação de uma Americas Counter Cartel Coalition com 17 países e declarou que os Estados Unidos e seus aliados deveriam coordenar-se para privar essas organizações de território, financiamento e recursos. Mais grave: anunciou que Washington irá treinar e mobilizar forças militares de nações parceiras para desmontar esses grupos e manter afastadas “malign foreign influences from outside the Western Hemisphere”. A frase é decisiva porque une, numa mesma chave, militarização, coalizão hemisférica e contenção de influências externas. Em linguagem direta, a Casa Branca está dizendo que segurança, geopolítica e soberania latino-americana passarão a ser filtradas pelos interesses estratégicos dos Estados Unidos.

É nesse ponto que o Brasil entra no centro do alvo. Porque um país continental, integrante dos BRICS, detentor de reservas estratégicas, protagonista em minerais críticos, agricultura, energia, infraestrutura de dados e política externa autônoma não cabe com conforto dentro de uma doutrina hemisférica que exige cooperação contra “narco-terrorists”, bloqueio de influências rivais e proteção de ativos estratégicos sob liderança americana. O problema, portanto, não é apenas Lula, embora Lula seja o principal obstáculo político imediato. O problema é o que o Brasil representa quando tenta decidir por conta própria com quem negocia, como regula plataformas, como explora seus recursos e como se posiciona diante da disputa entre Washington e Pequim. A chamada “guerra ao narcoterrorismo” funciona, nesse quadro, menos como política de segurança do que como linguagem de enquadramento para disciplinar governos recalcitrantes e reordenar o continente segundo prioridades imperiais.

Por isso, o que está em jogo não pode ser lido como mera sucessão de episódios desconexos. A doutrina vem primeiro. Depois, a militarização do discurso. Em seguida, a reclassificação do crime como terrorismo. Por fim, a coalizão hemisférica, a pressão por alinhamento e a contenção de potências rivais. Esse encadeamento não prova, por si só, um plano operacional fechado contra o Brasil em todos os seus detalhes. Mas prova algo suficientemente grave: Washington já formulou, oficializou e começou a operacionalizar uma arquitetura de poder incompatível com qualquer projeto brasileiro de soberania robusta. É essa arquitetura que precisa ser nomeada com frieza. Porque, em política internacional, há momentos em que a guerra começa muito antes do primeiro tiro. E, para o Brasil, esse momento já chegou.

A NOVA DOUTRINA MONROE DO SÉCULO XXI

A nova Doutrina Monroe não precisa mais ser inferida nas entrelinhas. Ela foi assumida de forma explícita pelo próprio Estado norte-americano. Na National Security Strategy de novembro de 2025, a Casa Branca afirma que quer um hemisfério que coopere com Washington contra “narco-terrorists”, que permaneça livre de “hostile foreign incursion or ownership of key assets”, que sustente cadeias críticas de suprimento e que preserve o acesso dos Estados Unidos a locais estratégicos. Em seguida, o texto abandona qualquer eufemismo e anuncia que o governo irá “assert and enforce a ‘Trump Corollary’ to the Monroe Doctrine”. A mensagem é cristalina: a América Latina volta a ser tratada oficialmente como espaço de disciplina geopolítica, contenção de rivais e proteção de interesses materiais dos Estados Unidos.

O que muda em relação ao passado é o método. A Doutrina Monroe do século XIX falava a linguagem crua da tutela hemisférica. A versão do século XXI fala a linguagem da segurança integrada, das cadeias de suprimento, dos minerais críticos, da tecnologia e do combate ao terrorismo. O conteúdo estratégico, porém, permanece reconhecível. O documento americano liga diretamente o hemisfério à necessidade de impedir “ownership of key assets” por atores hostis e, na mesma seção, afirma que os padrões e tecnologias dos EUA, especialmente em IA, biotecnologia e computação quântica, devem orientar o mundo. Não se trata apenas de impedir bases militares rivais. Trata-se de disputar portos, minas, infraestrutura digital, satélites, energia, normas técnicas e fluxo de dados. É a Monroe Doctrine atualizada para a era das plataformas, dos semicondutores e das terras raras.

Essa reatualização deixa o Brasil em posição especialmente sensível. Porque o país reúne, ao mesmo tempo, massa territorial, recursos estratégicos, protagonismo agrícola e energético, peso diplomático, inserção nos BRICS e margem real para negociação com múltiplos polos de poder. Um Brasil plenamente subordinado interessa a Washington como fornecedor confiável de commodities, parceiro de contenção e mercado regulado segundo padrões americanos. Um Brasil soberano, que queira processar seus minerais, decidir com quem compartilhar infraestrutura crítica, diversificar alianças e regular big techs, passa a ser visto como variável incômoda dentro dessa arquitetura. É por isso que a nova Doutrina Monroe não pode ser lida como abstração ideológica. Ela é, na prática, um programa de reorganização do hemisfério sob liderança dos Estados Unidos.

Os acontecimentos de março de 2026 mostram que essa doutrina já começou a descer do plano estratégico para o plano operacional. Em 5 de março, no SOUTHCOM, Stephen Miller declarou que cartéis “can only be defeated with military power” e que deveriam ser tratados “just as brutally” quanto Al Qaeda e Estado Islâmico. Reuters observou que Brasil, México e Colômbia não enviaram delegações, o que indica resistência de atores centrais da região à nova escalada. Dois dias depois, Trump assinou a proclamação que formaliza a Americas Counter Cartel Coalition, com representantes de 17 países, defendendo o uso de “hard power”, a coordenação para privar cartéis de território e financiamento, o treinamento e mobilização de forças militares parceiras e a necessidade de manter afastadas “malign foreign influences from outside the Western Hemisphere”. A doutrina, portanto, já ganhou sua primeira tradução prática: militarização hemisférica, coalizão securitária e contenção de influências externas sob comando americano.

É precisamente nesse encaixe entre doutrina e operacionalização que o Brasil passa a correr risco maior. Porque a linguagem do combate ao cartel, quando fundida à linguagem da contenção de influência externa, permite que qualquer país que preserve autonomia diplomática ou tecnológica seja gradualmente enquadrado como problema de segurança hemisférica. A nova Doutrina Monroe não precisa invocar ocupação formal nem intervenção clássica para produzir efeito. Basta criar o consenso de que certos governos são frágeis demais, permissivos demais ou autônomos demais para gerir seu próprio território, suas cadeias estratégicas e suas alianças internacionais. É assim que começa a tutela no século XXI: não mais com frotas na costa, mas com coalizões, classificações, pressão financeira, integração militar e captura narrativa. E é exatamente por isso que o debate sobre “narcoterrorismo” não é periférico. Ele é uma das chaves de entrada dessa nova arquitetura de subordinação.

A FARSA DO “NARCOTERRORISMO”

Nenhuma arquitetura de poder se impõe apenas com documentos estratégicos. Para que uma doutrina geopolítica se torne operacional, é necessário produzir uma linguagem capaz de justificar sua aplicação. No caso da nova agenda hemisférica dos Estados Unidos, essa linguagem atende por um nome específico: narcoterrorismo. A palavra parece descrever uma realidade objetiva, mas na prática funciona como instrumento político. Ela mistura duas categorias distintas — crime organizado e terrorismo — para produzir um novo enquadramento de segurança que amplia drasticamente o espaço de intervenção internacional.

No direito brasileiro, essa categoria simplesmente não existe. A Lei nº 13.260, de 2016, que define os crimes de terrorismo no país, estabelece critérios claros: atos motivados por extremismo político, religioso, racial ou ideológico destinados a provocar terror social ou pressionar autoridades. Facções criminosas como PCC e Comando Vermelho não se enquadram nesse conceito. Elas são organizações criminosas, com fins econômicos e territoriais, e são tratadas juridicamente dentro da legislação de combate ao crime organizado. Mesmo assim, a pressão para deslocar essa classificação começou a aparecer de forma explícita na relação entre Washington e Brasília.

Em 2025, autoridades dos Estados Unidos solicitaram formalmente que o Brasil considerasse classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. O........

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