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A última fronteira

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11.01.2026

A ofensiva contra o Irã não é regional nem ideológica. É a tentativa final de controlar os fluxos que mantêm vivo o Sul Global. Sanções, operações psicológicas, lawfare e guerra quente convergem em Teerã. O que está em jogo não é um país, é o futuro do sistema internacional.

O mundo entrou na fase terminal da hegemonia

A ordem internacional atravessa um ponto de inflexão histórico que não se confunde com crise conjuntural, desaceleração econômica ou rearranjo diplomático passageiro. O que se observa é o esgotamento estrutural de uma forma de hegemonia que, incapaz de sustentar liderança produtiva, tecnológica e moral, passa a operar crescentemente por coerção. Quando a capacidade de organizar consensos se dissolve, o poder se reorganiza em torno do controle, da interdição e da imposição assimétrica de custos. É nesse estágio que a hegemonia deixa de ser invisível e passa a ser sentida como força.

A transição em curso não é marcada por uma substituição imediata de centros de poder, mas por uma mutação qualitativa dos instrumentos de dominação. O sistema internacional deixa de funcionar prioritariamente por integração e passa a operar por disciplinamento. Sanções substituem acordos, normas substituem política, e a excepcionalidade jurídica se converte em regra operacional. O direito internacional, antes invocado como horizonte comum, é fragmentado e instrumentalizado como tecnologia de guerra. A previsibilidade, elemento central de qualquer ordem estável, transforma-se em privilégio concedido apenas aos atores alinhados.

Esse deslocamento é inseparável da perda relativa de centralidade produtiva do núcleo hegemônico. Quando a capacidade de organizar cadeias globais de valor, financiar desenvolvimento e oferecer prosperidade compartilhada entra em declínio, o poder migra para a administração dos gargalos. Controlar o acesso passa a ser mais importante do que controlar a produção. Quem define quais fluxos circulam, sob quais condições e a que custo, passa a deter o comando efetivo do sistema. A hegemonia, então, deixa de ser exercida pelo exemplo e passa a ser imposta pela escassez fabricada.

O discurso que acompanha esse movimento busca ocultar sua natureza histórica. A coerção é apresentada como técnica, as sanções como moralidade, a intervenção como responsabilidade. O léxico da segurança, do combate a ilícitos e da defesa de valores universais cumpre a função de despolitizar decisões que são profundamente políticas. Ao deslocar o conflito do terreno da soberania para o da legalidade seletiva, o poder imperial preserva a aparência de ordem enquanto dissolve seu conteúdo. A guerra não desaparece; ela muda de forma.

É nesse contexto que a fragmentação do sistema internacional se acelera. O mundo não se divide apenas em blocos geopolíticos, mas em regimes distintos de circulação. Há um espaço de alta previsibilidade, protegido por instituições, seguros, crédito e reconhecimento jurídico, e um espaço de instabilidade permanente, submetido a sanções, inspeções, interrupções e punições exemplares. Essa assimetria não é um efeito colateral: é o próprio mecanismo de governo do sistema em declínio.

A fase terminal da hegemonia não se caracteriza pela perda imediata de poder militar ou financeiro, mas pela incapacidade de oferecer um futuro compartilhado. Quando o horizonte se fecha, o sistema passa a viver de administrar riscos, conter alternativas e punir desvios. A política é progressivamente substituída pela força regulatória, e a exceção se torna método. É nesse cenário que a guerra deixa de ser evento e passa a ser condição permanente.

Este é o pano de fundo indispensável para compreender o presente. Nada do que ocorre hoje pode ser lido como episódio isolado, crise regional ou conflito ideológico. O mundo entrou numa etapa em que a hegemonia, ao não conseguir mais liderar, tenta sobreviver controlando. E é a partir dessa lógica que se desenha o tabuleiro contemporâneo, no qual cada movimento carrega implicações sistêmicas.

A guerra híbrida como forma dominante do conflito contemporâneo

A guerra deixou de ser um acontecimento delimitado no tempo e no espaço para se tornar uma condição permanente de governo do sistema internacional. O que hoje se convencionou chamar de guerra híbrida não é um conceito descritivo, nem uma moda acadêmica, mas a forma histórica que o conflito assume quando a hegemonia entra em declínio e já não pode sustentar-se nem pelo consenso nem pela ocupação direta. Trata-se de uma guerra que não começa com tanques nem termina com tratados, porque seu objetivo não é a vitória clássica, mas o controle contínuo.

A característica central dessa forma de guerra é a dissolução da fronteira entre paz e conflito. Sanções econômicas, operações financeiras, campanhas de desinformação, lawfare, pressão diplomática, coerção logística e ações militares pontuais passam a operar de maneira integrada, sem declaração formal e sem responsabilidade política explícita. A violência não desaparece; ela se distribui. Em vez do choque frontal, impõe-se a asfixia progressiva. Em vez da ocupação, a interdição. Em vez da conquista territorial, o controle do comportamento.

Nesse modelo, o alvo principal deixa de ser o Estado enquanto entidade militar e passa a ser a sociedade enquanto sistema psicológico, econômico e institucional. A guerra híbrida atua sobre expectativas, percepções, medos e incentivos. Ela busca produzir instabilidade cognitiva, fragmentação social e paralisia decisória. O objetivo não é apenas enfraquecer o adversário, mas torná-lo incapaz de organizar respostas coerentes. Quando a população perde a capacidade de interpretar o que está acontecendo, o conflito já foi vencido em seu nível mais profundo.

A psicologia social desempenha aqui um papel decisivo. A repetição de narrativas contraditórias, a saturação informacional, a amplificação do medo e a normalização da exceção criam um ambiente em que o indivíduo deixa de agir politicamente e passa a reagir emocionalmente. A guerra híbrida não exige adesão ideológica; basta induzir confusão suficiente para quebrar a coesão coletiva. O consenso não é substituído por outro consenso, mas pelo cansaço, pela desorientação e pelo cinismo.

O direito, nesse contexto, deixa de ser limite e passa a ser instrumento. A guerra jurídica não se apresenta como ruptura da ordem, mas como sua aplicação seletiva. Normas são mobilizadas de forma assimétrica, processos legais substituem a força bruta e a extraterritorialidade se converte em arma estratégica. A legalidade, ao invés de proteger a soberania, passa a funcionar como mecanismo de punição e disciplinamento. O conflito é deslocado do campo político para o campo técnico, onde decisões profundamente estratégicas são apresentadas como inevitáveis, neutras ou morais.

A economia, por sua vez, transforma-se em campo de batalha permanente. Sanções deixam de ser medidas excepcionais e passam a estruturar o sistema. O acesso a crédito, seguros, tecnologia, mercados e sistemas de pagamento é condicionado ao alinhamento político. O custo da dissidência é cuidadosamente calculado para não provocar ruptura total, mas para manter o adversário em estado de fragilidade crônica. A guerra híbrida não busca o colapso imediato; ela prefere a dependência prolongada.

Esse modelo de conflito não surge por escolha ética ou estratégica isolada, mas por necessidade histórica. Quando a hegemonia já não consegue expandir, ela passa a conter. Quando já não consegue integrar, ela........

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