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A esquerda, a máquina e o capital

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27.08.2026

A inteligência artificial não vai desaparecer porque denunciamos seus riscos. A questão decisiva do século XXI é quem controlará a técnica, para quais fins e em benefício de quem. Se a luta de classes chegou aos algoritmos e à inteligência artificial, abandonar esse território não é resistência. É entregá-lo ao adversário.

A esquerda está fazendo a pergunta errada

A esquerda tem razões de sobra para desconfiar da inteligência artificial. Ela nasce, em sua forma dominante, concentrada nas mãos de algumas das corporações mais poderosas da história, alimentada por volumes colossais de dados, infraestrutura computacional, energia e trabalho humano. Pode eliminar postos de trabalho, intensificar a exploração, ampliar a vigilância, automatizar decisões e concentrar ainda mais riqueza e poder. O diagnóstico é correto. O problema começa quando dele se extrai a conclusão errada.

Diante da inteligência artificial, boa parte da esquerda ainda pergunta o que a tecnologia fará conosco: quantos empregos destruirá, quais profissões substituirá, quanto poder entregará às Big Techs, quais capacidades humanas atrofiará. São perguntas necessárias. Mas são perguntas de quem observa a transformação tecnológica como objeto, não de quem pretende disputá-la como sujeito. A pergunta estratégica é outra: o que a classe trabalhadora pretende fazer com a inteligência artificial?

É precisamente nesse deslocamento que aparece a tecnofobia. Não na crítica à IA, que é indispensável; não na defesa de limites, regulações ou mesmo da proibição de tecnologias socialmente inaceitáveis; mas no momento em que a crítica à técnica sob o capitalismo se converte em recuo diante da disputa pela própria técnica. Porque a inteligência artificial não desaparecerá por ser perigosa. O capital tampouco renunciará a uma força capaz de ampliar produtividade, reorganizar o trabalho, concentrar conhecimento e produzir poder. Enquanto discutimos se deveríamos temê-la, outros estão decidindo quem a possui, como será construída e para que servirá.

É aqui que a tecnofobia deixa de ser apenas uma insuficiência de leitura e se torna um erro estratégico. Uma força política pode compreender perfeitamente os perigos de uma tecnologia e ainda assim fracassar em compreender o poder que existe em controlá-la. E nenhuma tecnologia desaparece porque aqueles que não a controlam decidiram recusá-la. Ela apenas continua sendo desenvolvida por quem tem capital, infraestrutura e capacidade para fazê-lo.

A esquerda pode, portanto, estar certa sobre quase todos os perigos da inteligência artificial e ainda chegar à conclusão política errada. A questão decisiva não é escolher entre aceitar a técnica ou resistir a ela. É decidir quem terá poder para determinar seus rumos.

Marx já havia separado a máquina do capital

Há quase dois séculos, Marx enfrentou uma confusão que retorna agora sob novas formas. Ao analisar as revoltas operárias contra a maquinaria, escreveu em O Capital que foi preciso “tempo e experiência” para que os trabalhadores aprendessem a distinguir a máquina de seu emprego pelo capital e, assim, deslocassem seus ataques do instrumento material para a forma social que o convertia em arma contra eles. A distinção é decisiva: a máquina não é o capital.

Isso jamais significou neutralidade. Marx descreveu com brutal precisão o que acontece quando a maquinaria entra na produção submetida à valorização do capital: ela pode disciplinar o trabalhador, intensificar o ritmo, desqualificar saberes, ampliar a exploração e transformar o ganho de produtividade em desemprego. A técnica incorpora relações de poder, reorganiza o processo de trabalho e pode confrontar quem trabalha como uma força hostil. Mas é precisamente aí que começa a análise materialista, não onde ela termina.

A contradição está no fato de que a máquina capaz de eliminar trabalho necessário contém uma possibilidade que o próprio capitalismo converte em ameaça. Se uma inteligência artificial permite realizar em duas horas o que antes exigia........

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