Chico Buarque quis gravar com Silvio Rodrigues em Havana |
A ideia de viajar a Cuba partiu do próprio Chico Buarque. Pouco antes de tomar essa decisão, fazia planos com o amigo cubano de décadas, o músico Silvio Rodrigues, de gravarem juntos uma nova versão de “Sueño con Serpientes”, clássico do repertório de Silvio Rodrigues, um dos expoentes da Nova Trova Cubana. Com toda a tecnologia disponível, Silvio poderia gravar uma parte da música em Cuba e Chico completaria a gravação no Brasil. Os músicos cubanos fariam a base. Outra opção seria Silvio e os músicos virem gravar no Brasil.
Mas não. No dia seguinte à conversa com Silvio, num estalo, Chico pensou: por que não gravar em Cuba? “Vamos gravar em Cuba. O que acha, Carol”, perguntou à mulher, que se emocionou. “Modéstia à parte, a ideia foi minha”, afirmou Chico, por telefone, de Havana, orgulhoso.
Viajar para Cuba não foi, porém, uma simples decisão. A ideia de Chico envolvia muito mais que uma gravação musical. Neste momento, Cuba sofre a maior ameaça à sua integridade e soberania desde a Revolução de 1959. Bloqueios, tentativas de assassinato de Fidel Castro, sabotagem, nada foi tão grave quanto a declaração do presidente Donald Trump de que “Cuba é a próxima”, e de que “terá a honra” de tomar a ilha para “fazer o que quiser”.
Pois o cantor, compositor e escritor brasileiro, de 82 anos, se deslocou para Havana para levar sua solidariedade quando os cubanos mais precisam de apoio internacional. Em meio à forte crise econômica e energética, provocadas pelo endurecimento das sanções norte-americanas, com bloqueio de petróleo, Chico desembarcou com medicamentos para serem entregues ao ministério da Saúde cubano.
Mais que isso: Chico levou a Cuba o amor que muitos brasileiros têm por esse país que sobrevive até hoje com a coragem e a força de seu povo. E levou sua voz para gravar uma música com um dos ícones da cultura cubana. Não uma música qualquer. “Sueño con Serpientes” fala da resistência e da luta permanente contra um inimigo que ao ser destruído, volta ainda maior. Um inimigo na forma de serpentes, as forças opressoras que tentam “roubar o amor” e a liberdade.
Vejam a letra de “Sueño con Serpientes, que abre com um trecho de um texto de Bertolt Brecht. (Abaixo, a tradução)
Hay hombres que luchan un día
Hay otros que luchan un año
Hay quienes luchan muchos años
Pero hay los que luchan toda la vida
Esos son los imprescindibles
Con serpientes de mar
Con cierto mar, ay, de serpientes, sueño yo
Largas, transparentes
Y en sus barrigas llevan
Lo que puedan arrebatarle al amor
La mato y aparece una mayor
Con mucho más infierno en digestión
Pero se atora con un trébol de mi sien
Le doy de masticar una paloma
Y la enveneno de mi bien
La mato y aparece una mayor
Con mucho más infierno en digestión
Esta al fin me engulle
Y mientras por su esófago paseo
Voy pensando en qué vendrá
Cuando llego a su estómago
Y planteo, con un verso, una verdad
La mato y aparece una mayor
Con mucho más infierno en digestión
La mato y aparece una mayor
...............................
Há homens que lutam um dia
Há outros que lutam um ano
Há aqueles que lutam muitos anos
Porém há os que lutam a vida toda
Esses são os imprescindíveis
Eu sonho com serpentes
Com um certo mar, ai, de serpentes, sonho eu
Grandes, transparentes
E em suas barrigas carregam
O que possa tirar-lhe o amor
Eu a mato e aparece uma maior
Com muito mais inferno em digestão
Não caibo na sua boca
E ela trata de me engolir
Mas se engasga com um trevo na minha cabeça
Eu acho que ela está louca
Dou uma pomba para ela mastigar
E a enveneno com o que há de bom em mim
Eu a mato mas aparece uma maior
Com muito mais inferno em digestão
E passeio no seu esôfago
Vou pensando no que virá
Quando chego ao seu estômago
E planto, com um verso, uma verdade
Eu a mato mas aparece uma maior
Com muito mais inferno em digestão
Eu a mato mas aparece uma maior
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.