O paradoxo de Ormuz e a hora do Brasil |
O barulho dos últimos 40 dias é sinal dos novos tempos. A crise global revela um novo cenário. O que acontece agora no Estreito de Ormuz antecede um rearranjo. Não é só outro capítulo na tensão permanente das grandes potências. A guerra no Golfo Pérsico é um aviso de que o resto do planeta começa a respirar de outro jeito por conta deste ponto no mapa do Oriente Médio.
A interdição da passagem pelas forças iranianas, seguida da resposta militar dos Estados Unidos, fez dessa faixa de mar um lugar em que comércio e conflito agora são inseparáveis.
As manchetes sobre guerra ainda se desdobram, enquanto o preço do petróleo sobe e desce nas bolsas. Mas a crise transbordou – como já apontei aqui nas últimas semanas. Frete, seguro, tempo das rotas, cadeias produtivas... O humor dos mercados segue as declarações do presidente Donald Trump. E, daqui para frente, virão outros solavancos.
Quando uma parte tão sensível do fluxo global de energia entra em risco, o mundo não paga apenas mais caro. Passa a confiar menos. Essa é a mudança importante. Em vez de olhar apenas para o preço, olha-se para algo mais básico e mais raro: a confiabilidade. É nesse ponto que o Brasil aparece como parceiro.
Não por genialidade estratégica, nem por um movimento calculado com antecedência. Às vezes, a geopolítica molda cenários até pouco tempo improváveis. Sem planejar o papel principal, países acabam convocados pela circunstância. O Brasil, de repente, passa a ser lido não apenas como exportador relevante de petróleo, mas como uma espécie de zona de previsibilidade num mundo que voltou a andar aos solavancos.
E previsibilidade, hoje, vale muito. Mas, reparem no paradoxo.
A crise em Ormuz expôs uma fissura menos visível, mas talvez mais duradoura: a diferença de visões e de ritmo entre Estados Unidos e Europa. Washington continua operando dentro da sua gramática clássica, aquela em que poder militar, demonstração de força e controle estratégico são instrumentos quase naturais de resposta. A política externa que o mundo conhece há quase um século. Para os americanos, o tabuleiro segue sendo geopolítico.
Mas, na Europa, o olhar parece outro. Berlim, Paris, Madri não enxergam apenas a escalada militar. Estão vendo a conta chegar em setores vitais – indústria, energia, transporte. E temem um choque ainda mais brutal na economia, reacendendo velhos........