Eleições gerais de 2026 sob o império da IA (II) | A caixa-preta do dinheiro |
Há uma cena que não rende foto e, por isso mesmo, passa batida. Ela não acontece no palanque, nem no plenário. Acontece numa sala com ar-condicionado e café morno, diante de uma tela onde não há eleitores — há números. Não se fala “povo”. Fala-se “público”. Não se diz “convencer”. Diz-se “otimizar”. Não se debate “verdade”. Debate-se “performance”.
Em 2026, com a inteligência artificial barateando a produção e acelerando a distribuição, a política descobre um atalho perigoso: comprar presença constante sem parecer propaganda. O que era campanha vira ambiente. O que era peça vira conversa. O que era slogan vira meme. E o que era persuasão vira saturação — aquela sensação de que “está em todo lugar”, antes mesmo de alguém provar de onde veio.
A pergunta que decide o ano não é “quem mentiu?”. É outra, mais seca e mais útil: quem pagou — e por qual caminho? Sem esse caminho, a democracia vira um mercado de alcance com recibos bonitos na entrada e sombra no destino final.
O dinheiro como oxigênio
Comunicação pública é parte do Estado. Orientar, prestar contas, fazer campanhas de utilidade pública — tudo isso é legítimo. O problema começa quando, no mundo digital, a execução vira um corredor longo de terceirizações e subcontratações, e cada porta fechada reduz a visibilidade sobre quem faz o quê.
A dinâmica é conhecida, mas a escala mudou. Hoje, o governo contrata e a agência executa. Já o fornecedor terceiriza. E o intermediário “ativa”. Uma rede “distribui”. Um criador “posta” e o recorte circula. Outro corte viraliza. E o público, que só vê o........